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18 – Ele é só um homem que sabe demais

– E fim. Que seu telefone está tocando, João… aliás, me dá isso aqui.

Rafa tira de perto de João e Ricardo o telefone que vibra pela terceira vez.
– Rafael, me dá o telefone.
– Está esperando alguma ligação, espertinho?
– Sim!
– Em pleno final de semana de descanso?
– Ele tem razão, Johnny… estamos aqui para relaxar. Estou incumbido dessa missão, inclusive.

Ricardo se levanta, faz uma rápida massagem nas costas de Rafael que coloca os celulares sobre a mesa do quiosque. João se perde olhando para o mar enquanto Ricardo volta para a toalha estirada no chão e acende um baseado.
– Me fale sobre a sua família…

Aquela frase leva João para dentro de sua memória. Revivendo alguns pensamentos que talvez devessem continuar ali, esquecidos.

Dois homens, o poço, e o fundo dele

O ano é 2008, quatro anos atrás. João está sentado em uma larga poltrona da sala dois do CEDEP, o Centro de Dependência em Sousas, nos arredores de Campinas. Vestindo um uniforme cáqui e os olhos vidrados na janela, Max, seu padrinho e cuidador, tenta novamente falar com o paciente recém chegado.
– As vezes em penso em fugir.
– Do quê?

Silêncio…
– João? Você está aqui?
– Fugir de tudo… de mim.
– O que você faria?
– Eu não sei.
– É isso que quer pra você? Acha válido se esconder?
– Eu não estou me escondendo…
– Bem, ninguém sabe que você está aqui comigo hoje.

Max serve um copo d’água para si, lentamente, observando cada movimento de João que insiste em não olhar para ele.
– Talvez você esteja tentando sabotar sua própria vida…
– Vá se foder.
– Não. Vá você se foder.
– Eu já estou fodido, Max.

João se levanta, pega um cigarro sobre a mesa e acende, no beiral da larga janela e única fonte de luz.
– Será que podemos mudar de assunto, por favor?
– Me fale sobre sua família… se você fosse…
– Para onde?
– Fugir. Como falou há pouco.
– Minha família não existe mais.
– Todo mundo tem um família. Hitler foi visitado por seus parentes horas antes de morrer.
– Eu não sou a porra do Hitler.

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Max surpreende Johnny chegando próximo de seu ouvido, segurando um de seus braços e deixando com que o cigarro, já aceso, caia sobre o apoio da janela.
– O que é você, João?
– Eu sou a porra de um veado, sem pai nem mãe… deserdado, traficante, viciado. Eu estou envolvido em merda… eu estou fodido e envolvido em merda.
– Você fica muito na defensiva, quando falamos sobre eles.

Max saca um novo Lucky Strike do maço e acende para o paciente, segurando sua mão trêmula e olhando diretamente para seus olhos. O homem traga o cigarro, devolve para Johnny e pergunta o que precisava saber durante tantas horas:
– João… você viu aquele homem morrer hoje?

Subitamente João volta para si, em 2016, levando uma baforada de maconha. Ricardo acena para ele há um ou dois palmos de distância.
– Ele está bem?
– Relaxa, ele sempre desliga desse jeito. Eu falo pro João que ele não deveria…
– Falando nisso, sim, estou esperando um telefonema importante senhores. Se não se importam eu vou salvar meu telefone do seu cativeiro e espero que vocês dois vão para o mar… está um puta calor, não percam tempo aqui, ouvindo as minhas bobagens.
Rick, com a mesma energia juvenil e carinhosa de sempre, pega na mão de Rafael, apaga o cigarro e corre para a água, competindo com o parceiro quem chegaria antes até lá.
Enquanto isso João confere as ligações perdidas. Duas do Estado, um número desconhecido e uma caixa postal. Por um instante tentou imaginar quem em pleno ano de 2014 deixaria um correio de voz invés de uma mensagem instantânea ou sms.

[Correio de voz]
– Oi João, Johnny… não sei como te chamar exatamente. Meu nome é Caio, Caio Nascimento. Eu sou jornalista e quem me passou seu contato foi o Maia. Acho que temos alguns assuntos em comum. Enfim, me ligue assim que puder. Abraços.
– Tecle um para ouvir novamente, dois…

João ficou parado, olhando para o aparelho e pensando no importante passo que daria naquele momento. Deixaria de ser um observador comum e uma testemunha, assumiria um papel fundamental na história, mudando sua vida novamente.

– As vezes em penso em fugir.
Conversar com aquele colega o fazia lembrar das inúmeras vezes em que ele, um simples “João”, tentou salvar o mundo mas acabou tão envolvido em problemas que, por fim, restava apenas ele. Não teve tempo de pensar se estava pronto para aquilo quando o telefone tocou novamente.

Agora podia ver que era Caio, o número que salvou quando Maia passou há alguns dias:
– Caio?
– Oi João. Me desculpe a insistência.
– Tudo bem. Não estou em São Paulo hoje…
– Sim, eu sei. Quando volta?
– Em dois dias, provavelmente.
Depois disso a ligação foi curta e direta. Caio disse que aguardaria o novo amigo e que “precisavam conversar antes de qualquer coisa”. Os dias passaram devagar e João, embora (duplamente) bem acompanhado, só pensava na volta para casa.

Se uma porta estiver aberta, não entre… nunca

Logo João, Rafael e Ricardo estavam de volta à São Paulo. Rafa deixou o terceiro integrante na estação de metrô, se despedindo do casal com um beijo fraternal e suave em suas bocas.
– Vejo você amanhã, Johnny?
– Claro… obrigado pela companhia.
– Obrigado por tudo isso.
Respondeu Rick, fechando a porta e se perdendo no caminho da travessia. Rafael olhou para seu parceiro, sorriu e arrancou com o carro em direção a Luz.

– Vejo você amanhã, Johnny?
Disse Rafa, imitando Ricardo. Os dois sorriram e João prometeu ligar assim que arrumasse as malas e se despedisse de Clara. Durante os dias na praia, a amiga enviou fotos dela e Artemísia, a gata preta de João, em seus momentos juntas cozinhando, lendo e fumando.
– Se ainda me quiser…
– Acho que vamos nos aturar por muito tempo, bobão.

João aguardou o velho elevador do prédio de cinco andares por quatro ou cinco minutos, calmo mas na expectativa de se despedir logo de Clara e descansar. Durante esse meio tempo sua síndica, Dona Paulina, apareceu no hall de entrada e abraçou o inquilino, falou sobre seu final de semana e insistiu que a ajudasse com outros dois quartos de aluguel disponíveis no prédio.
– “Fio”, se tiver alguém pra indicar me avisa, tá bom?
– Claro Dona Paulina. Eu estou chegando de viagem agora e assim que me acomodar aviso a senhora.
– Obrigada, meu querido… sempre me ajuda muito aqui no prédio, sabia?

A septuagenária tinha João como um neto. Há três ano morando no mesmo endereço, o jovem fazia companhia para a velha síndica, ouvindo seus lamentos, suas histórias e os conflitos que tinha com o único filho, fruto de um casamento com o falecido marido, Altemiro, um policial militar morto em combate, ilustre na Delegacia Geral de Polícia Adjunta da mesma rua do prédio em que é quase dona de todos os dez apartamentos.
– A propósito, sua amiga está na sua casa. Ela é muito simpática… se estiver procurando um lugar para morar, avise ela também.
– Pode deixar Dona Paulina, pode deixar comigo!
Concluiu João, já irritado com a porta emperrada do elevador.

Ao chegar na entrada de seu apartamento observa a porta semiaberta. “Alguma coisa havia acontecido, Clara jamais teria deixado a porta aberta”, pensou João, relembrando tudo que passou e as pessoas desconhecidas e perigosas que agora o conheciam pela ida ao Rent.
– Clara? Tem alguém aí?
Abrindo a porta lentamente se perdeu em pensamentos de alguns dias. Calafrios tomaram conta de seu corpo chegando até a cabeça, confusa e ouvindo de forma cristalina a voz grave e assustadora de Jacques, naquela tarde em que voltou para CEDEP, em 2008.

#18 - Ele é só um homem que sabe demais_POST B

– Se uma porta estiver aberta, não entre… nunca!
João via no chão de sua sala ele mesmo, coberto de sangue. Um corpo irreconhecível pelas dezenas de marcas de faca que violaram seu rosto, pescoço e partes do peito aberto, cavado por um ataque quase monstruoso e inacreditável.

Gritou e ameaçou olhar para trás, voltar para a porta, próxima de seu braço. Aterrorizado e esperando reencontrar o traficante de Campinas que havia destruído sua vida, João fechou os olhos e tentou buscar o equilíbrio… aquilo não era real e ele sabia.
– É coisa da minha cabeça… da minha cabeça fodida.
– Johnny!?
Uma voz diferente surge por trás, segurando seu ombro.
– Calma, sou eu, Caio!
Clara corre em direção ao amigo, saindo da cozinha e deixando no fogo a água do café:
– João! Está tudo bem?
– Eu… eu acho que sim!
– Que susto você me deu, caralho. Seu amigo foi buscar uns biscoitos para beliscarmos com o café que está saindo agora.
– E deixei a porta aberta, falha minha.
– Tudo bem… estou mais calmo. Bom, vamos nos apresentar direito, não é?

– Sou o Caio Nascimento, e provavelmente você fará parte da minha história, de alguma maneira.

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