17 – Memórias, troca trocas e ensaios da minha infância

Naquela tarde, segundo minha mãe (que só nos dias de hoje, mais de 20 anos depois, fala sobre o assunto), um “estalo” a acordou para uma possível realidade: meu filho é gay?

– Ele… ele e o Samuel estão muito próximos…
– Muito próximos?
– Sim, do tipo, muito amigos…
– Mas isso é bom para os meninos, não?
– Carmem, o João está obcecado pelo meu filho… e isso tem que parar!
Por um instante aquela frase não fazia sentido para as duas mães e Solange desistiu de aprofundar sua teoria desconversando, reclamando de sua rotina, da dificuldade de ser mãe solteira e os desafios que um filho único representava naquele momento. Voltei para casa, Dona Solange para seu consultório e minha mãe para seus pensamentos.

Wesley me incomodava de uma forma estranha e original. O mais novo de três filhos homens, Wesley tinha a malícia púbere de um garoto criado na rua, e aplicava seus conhecimentos básicos de reprodução humana com outros vizinhos, sem muita cerimônia.

O curioso disso tudo é ver hoje, nas redes sociais, um pai de família bonachão carregando o segundo filho em um batizado… Wesley certamente surpreende seus antigos pares com essa nova faceta.

O primeiro Wesley Safadão que se tem notícia

Na ruinha, havia boatos que Dinho, o “filho da macumbeira”, estava de caso com um dos meninos mais velhos do time de futebol do bairro. Uma verdadeira caça às bruxas foi instaurada por seu irmão primogênito, e claro, Wesley estava envolvido na história como umas das testemunhas. Cínico e de fácil conversa, meu vizinho era ativamente presente em brigas e novidades em diferentes turmas.

A crescente polêmica se o menino, que na época tinha treze ou catorze anos, tinha dado a bunda transformou pais e mães em constantes vigilantes da moral e bons costumes do Bela Vista. Toques de recolher foram instaurados e assim, por longos meses, pouco foi o movimento das crianças nas ruas. Todos nós passamos a brincar dentro de casa sob supervisão de empregadas desleixadas que raramente deixavam de lado o trabalho e seus passatempos para observar os filhos dos patrões.

Esse foi meu caso, e assim fiz o primeiro troca-troca da minha vida. Meu contato com Samuel havia diminuído substancialmente após o episódio de surto de ciúmes e o menino passara a ficar na casa do pai, alguns quilômetros dali, alguns dias da semana. Minhas tardes e meus sentimentos por Samuca foram substituídos por aulas de natação, futebol e inglês… uma tendência comum dos pais de hoje em dia com crianças, cada vez mais cedo.

Em pleno verão de janeiro e fevereiro estava atolado de atividades extraclasse e assim supria meu TDAH com predomínio de sintomas de hiperatividade e a ausência dos meus pais. Minha mãe, brava professora em três períodos, voltava para a batalha do débil ensino brasileiro e meu pai se ocupava com seu trabalho remunerado de supervisor de segurança e o não remunerado de pastor de igreja (e tempos depois com a amante). Minha irmã, quase sempre figurante em qualquer situação, vivia sua adolescência nas aulas de piano e namoricos com garotos da congregação, sobrando, assim, mais espaço para minhas descobertas.

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Em uma dessas tardes insuportavelmente quentes de Bauru, Nina foi instruída a chamar alguns dos meninos para desfrutar da piscina de casa (“esta merda vive jogada às traças, um gasto desnecessário de dinheiro”, afirmava meu pai), chamando Tomie, Danilo, Samuel, dois ou três garotos do colégio e Wesley, que se convidou sabendo do evento.

Alguns deles preferiram ficar em casa com seus novos cartuchos de Street Fighter e FIFA Soccer e apenas Danilo e Wesley apareceram até mesmo antes do horário combinado. Lá ficamos toda tarde, com pés e mãos enrugadas, treinando saltos, molhando todo o quintal (que quase sempre servia de “escorregador” quando adicionado sabão) e outras performances exibicionistas de Wesley, que era mais atlético e veloz em quase todas as brincadeiras.

Em determinado momento o calção de Wesley sumiu em pleno mergulho, uma surpresa para os três meninos. Danilo foi o primeiro a notar que o amigo estava pelado quando voltou à superfície e todos riram.
– O Wes está com o pau de fora!

Um surpreendente pau para sua idade. Fiquei parado observando o meu amigo com espanto e admiração, que não se importou com a situação e subiu na beira da piscina de fibra e começou a ensaiar alguns passos de dança, sacudindo os bagos e rindo de si mesmo. Em pouco tempo Danilo faria o mesmo, e lá ficariam os dois moleques pelados, sem vergonha e um pouco de astúcia.
– Sua vez, João!
Gritou Danilo vindo em minha direção. Para mim aquela brincadeira significava algo mais, embora não fizesse a mínima ideia do quê. Uma mistura de medo e insuportável vergonha de ficar nu em público (que me perseguiria o resto da vida) tomaram conta e decidi que não faria o mesmo, embora estivesse em êxtase com o exibicionismo deles.

Por algum tempo continuaram a nadar como se nada diferente acontecesse ali, entremeando com novas brincadeiras, como passar por baixo das pernas submersos sem que tocassem os pintos um do outro (mas obviamente se abaixavam para apimentar a situação e as piadas) e competições de quem teria o maior membro.
– Então o João será o juiz!
Indicou Danilo, certo de sua escolha.
– Eu não quero fazer isso…
– Por que não, seu cagão?
Indagou Wesley, me empurrando e tocando o pau do amigo.
– Não sei… acho que não deveríamos fazer isso…
Tinha algo de errado no desafio e sabia disso. Se Nina chegasse e nos visse pelados pegando um no pinto do outro certamente teríamos problemas. Embora meu temor precoce dissesse para desistir da novidade, meus instintos indicavam que precisava entender do que se tratava aquilo. Danilo instituiu novas regras à disputa:
– Mas só vale duro.
– Combinado!
Os dois começaram a mexer em seus pequenos paus rapidamente e com grande habilidade, colocando para fora e dentro suas cabeças. Em segundos os dois garotos estavam rijos diante de mim, exibindo orgulhosamente seus cacetes brilhantes sob o sol. Danilo já tinha alguns pentelhos e orgulhava-se de ter a mesma medida do oponente, embora mole fosse muito menor. Não conseguia tirar os olhos de seus paus e resolvi então tocá-los, exercendo o papel que me era de direito.

Assim foram minhas primeiras descobertas e fascínios por outros homens. Foi natural, sem abusos até que se prove o contrário. Naquele dia a diversão acabou por ali, com alguns bolinadas e Wesley como o grande campeão. Nunca mais tive aqueles momentos de intimidade com Danilo, mas com Wesley se tornou um confidente de minhas descobertas. Por alguns anos observei Wesley se masturbar, tocar outros garotos e até mesmo gozar, sem entender o que aquilo significava. Com ele aprendi a me tocar, observar mulheres de lingerie e homens de Zorba em propagandas impressas e me interessar por aquilo de outra maneira. E claro, assistir aos clássicos de Emanuelle na calada da noite em nossas “noite do pijama”.

Tentaria replicar com primos a experiência, sem muito sucesso, e por anos encontrei outros amigos que fariam troca troca comigo sem nenhuma culpa ou presunção. Meu primeiro beijo foi em uma garota, “namorei” minha prima mais velha e também brinquei de médico como qualquer outra criança, mas a minha maior recreação eram com os meninos.

Wesley foi um verdadeiro professor para muitos da Boa Esperança, e eu um ótimo aluno.

Alguns segredos e o silêncio da coxia

– Eu não tive metade dessas experiências malucas na minha infância. Sempre só olhei, embora soubesse que meu negócio eram caras.
Afirmava Ricardo dando sinais de que o sol estava fazendo efeito. Enquanto Rafael buscava outra cerveja, nosso parceiro estava ainda mais curioso sobre minha experiências infantojuvenis.
– Você nunca vestiu roupas da sua irmã, por exemplo?
– Não. Eu não tinha noção do que acontecia comigo, acredite… mesmo que brincasse de casinha com minha coleção de Comandos em Ação, foi realmente uma surpresa para minha família quando descobriram que era gay.

Eu era o artilheiro do time da escola e o garoto-problema do fundão. Não me encaixei em nenhum grupo mas fazia parte de todos, e modéstias à parte, fui bastante namorador. O filho da professora Carmen era o bom exemplo de notas excepcionais e mau exemplo de comportamento. Minha mãe passava como um tiro na porta da diretoria, sempre esperando por uma chamada da diretora (e sua chefe), e voilá… lá estava eu advertido novamente.
– Professora Carmen, o João está aqui… de novo.
Acenava Fátima, a responsável pelo ensino fundamental e médio do colégio. Embora colocasse minha mãe em infinitas situações constrangedoras, era o orgulho da casa.
O filho mais criativo, empenhado e proativo da família passou a adolescência envolvido em diferentes cursos e iniciativas: capoeira, futebol, campeonatos de xadrez e olimpíadas de matemática tentavam amenizar a sede por novas descobertas que o restante da família fugia. Não me sentia parte dos cultos dominicais e satisfações simples de meus parentes… o que de início era motivo de orgulho mas logo se tornou um fardo.

No curso de inglês (que me tomava quase todo o sábado – e odiava isso) descobri o teatro, e sobre o palco descobri quem realmente era.

Como sempre havia terminado meus exercícios antes dos demais e propositalmente fui dispensado para “dar um tempo” para o restante da sala. Ao sair da sala de inglês ouvi alguns batuques e gritos que não faziam o menor sentido. “Deve ser algum tipo de ritual espírita”, supunha minha cabecinha preconceituosa e limitada.
No fundo da escola havia um enorme galpão que também servia como estacionamento em dias de maior movimento. Lá também foi fundado o primeiro grupo de teatro que participei, e aquele era o terceiro ou quarto encontro deles. Por uma pequena fresta do portão observei as pessoas dando as mãos e gritando e comecei a rir…

– Por que não vem para cá dar risada com nós, ao invés de rir “de nós”?
Perguntou Rita, a mais velha do pequeno grupo, em tom de provocação. Pego de surpresa, fiquei envergonhado e decidi entrar. Aquele foi o primeiro exercício cênico que faria em minha vida, e lá tudo mudaria pra mim. Rita se tornaria minha professora, uma mestra zelosa e dedicada que lutaria inúmeras vezes ao lado de seu rebanho por bons anos de grupo e montagens.

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Conheci novas pessoas, igualmente criativas, irrequietas e desencontradas, aprendi a abraçar, me expor sem medos e quebrar alguns tabus sobre meu corpo e a sexualidade que já apontava em mim o desejo por ir além de garotas. Naquela coxia, poucos meses depois, descobriria aos quinze ou dezesseis anos, que deveria me permitir para ser feliz e aprendi, sem muito receio, que poderia ser feliz sendo que mesmo… mas a felicidade lá ficava quando voltava para casa e a verdade dura da minha família se tornava cada vez mais evidente.

Quando meus pais passaram a brigar mais e mais, o que sempre fora recorrente se tornou violento e preocupante. Acho que aquilo fazia parte de crescer, e sim, pode ser doloroso e complicado se você estiver sozinho…

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4 comentários

  • Reply Rafael 23 de abril de 2020 at 21:58

    texto um pouco antigo, mas estive lendo coisas assim de curiosidade, sou totalmente hetero mas na infancia tive muitas situaçoes assim com um primo em especifico, 3 anos mais novo q eu. hoje tenho 33 anos, namoro ha 10 com uma mulher, e so sinto atraçao por mulheres, EXCETO claro esse meu primo, as minha mina nunca vai saber disso. eu era garoto, tinha 10 ou 11 anos, meu primo tres anos mais jovem, porem sempre foi desses garotos safados, tudo começou a gente vendo as playboys do pai dele, a gente olhava pagina por pagina e ele começava a mostrar o pinto duro pela calça, dias foram passando e em um determinado dia ele me mostrou e perguntou como era o meu, perguntou se ficava duro assim como o dele, e eu fiquei super excitado vendo o pinto dele duro, era muito pequeno, mas uma aparencia meio grotesca e torta, uma cabeça enorme em relaçao ao corpo e resolvi mostrar o meu, qdo mostrei e arregacei meu pinto estava todo babado, a cueca tbm, ele perguntou oq era aquilo rsrs, nunca esqueci e tbm nao sabia oq era, pq nunca tinha acontecido, e nao era de gozada, ele apenas tava molhado sei la! lembro tbm de ele ter se surpreendido com o tamanho do meu pau, para a minha idade era enorme pois tinha quase o tamanho q tem hoje, hj tenho 14cm, confesso q nao é grande kkkkk, mas pra epoca aquilo era um kid bengala, o dele tinha menos q um dedo da minha mao! a reaçao dele no momento foi pegar e me masturbar, e nessa brincadeira ele foi ate a porta e fechou, trancou e disse: vamos fazer uma brincadeira tu é o homem e eu sou a mulher, ele colocou meu pinto na bunda dele, meio errado claro, e mandou eu enfiar, eu nao sabia nem por onde começar mas a empurrada q ele dava com a bunda no meu pinto foi tao gostosa q eu tive a minha primeira gozada ali nela… bom, assim continuamos por dias e principalmente noites em q dormiamos juntos, mas certa vez resolvemos inverter os papeis, e ali q eu ganhei minha preferencia, de ser passivo, era uma delicia sentir o pau dele ali, e cada vez mais eu botava o pinto dele proximo do meu anus… tempo foi passando, o pau dele com o tempo começou a ficar do tamanho do meu, e certa vez na minha casa num raro momento em q eu era ativo, ele me deu um beijo rsrs, eu recusei, ele nao curtiu muito, me virei e mandei ele botar com força, mas pra falar a verdade nunca conseguimos fazer penetraçao de fato, nunca tinhamos pensado em colocar gel ou algo assim pra facilitar. os anos foram passando e isso foi meio esquecido, ate q um dia dormimos juntos na minha vó, era 2009 isso, eu estava deitado no chao com ele, como faziamos no passado e meu coraçao batia forte, eu estava de costas pra ele louco pra q ele me abraçasse, qdo ouvi a tv ligar, fingi estar dormindo e ele tava vendo algo na tv, olhei de relance e quem tava na tv era aquela ex bbb rebolando de calcinha e sutia, tal de jaque cury, e meu primo batendo punheta, obviamente pra me provocar, e foi ai q tudo mudou em mim, me assustei vendo aquele pau, tinha o mesmo tamanho do meu, ainda tem, mas a grossura era uma coisa de outro planeta, nunca tinha imaginado q aquilo fosse possivel! imediatamente vi e falei com ele, “caralho, grossão!!”, ele vira e diz,
    “dá só uma chupadinha?”, caí de boca sem nem pensar, a sensaçao me lembro ate hj, o pau simplesmente nao cabia na minha boca, apenas um trecho da cabeça vermelhona dele, essa foi a melhor noite de sexo q tive na vida, ele buscou manteiga na cozinha (!), me lambusou e no decorrer da noite me penetrou, senti dor demais mas o prazer era tanto q eu superei, ele urrava qdo gozava, eu digo isso pq fizemos umas 4x na noite, a sensaçao era deliciosa dele me segurando, quase me estuprando e lambendo meu pescoço de lado comigo.

    essa é minha historia resumida, hj ele tem 2 filhos e ta namorando outra mulher q nem é a mae, euzinho aqui Rafael detesto olhar pra qualquer tipo de homem, nao sinto atraçao por nenhum! mas qdo me lembro do primo G. eu ate me masturbo pensando nas epocas. Eu nao me considero gay, se for pra ser gay dele, ok, mas gay na vida nao sou, sou um tarado sexual com mulheres, acho q a tara q tenho com elas veio dessa epoca rsrs. Tenho saudade de ver esse meu primo e fazer tudo de novo. Tenho uma grande amiga do coração, uma dessas q eu jamais vou sentir qualquer tipo de desejo pq ela é uma irmã pra mim, é a unica pessoa da face da terra, tirando o G. claro, que sabe dessa historia, ate contando pra ela eu me mordo de tesao, e vira e mexe ela me pergunta se sinto falta do pauzao dele auhauahuahauha. Bom, esse é meu relato, infelizmente nao posso dar mais detalhes de quem sou e tal e coisa, pq né, mas é isso, gostei de contar aqui pra quem quiser ler.

    Lembrei aqui de uma vez q ele, ainda jovem, tava so me comendo, e virou a cara pra mim dizendo q tava cansado, q queria dar, q tinha acordado com vontade de dar, auhauahuahau

  • Reply Saulo Araújo Felício 16 de janeiro de 2017 at 17:20

    Seu texto é incrível. Devorei suas reflexões e posso dizer que a simplicidade e originalidade são de uma preciosidade inestimável.

    • Reply Kinho Mangerona 16 de janeiro de 2017 at 17:26

      Oi Saulo, poxa que carinho legal. Obrigado!
      Espero que continue acompanhando e compartilhe com amigos… tenho tentado publicar um capítulo novo por semana, mas sabe como é a correria né? Beijão!

      • Reply Saulo Araújo Felício 16 de janeiro de 2017 at 18:38

        A vida não pára, não é mesmo? Por isso é uma preciosidade encontrar um relato do cotidiano que seja tão identificável, essa é a chave do sucesso, na minha opinião, aquilo que nos aproxima é o que mais nos admira.
        As singularidades de suas experiências são tão bem expostas: você encontrou um bom argumento para os fatos que te acompanharam; sua história é algo comum, mas ao mesmo tempo único. Um herói na medida certa, e uma verdadeira “Proporção Áurea” das personagens.
        Te desejo bastante sucesso, não só nessa plataforma, mas em várias outras – em que você deveria galgar seu espaço. Com certeza acompanharei sua saga, viverei um pouco dessas experiências, como minhas, sofrerei e me alegrarei.
        Você é um talentosíssimo Autor, não te recomendar é até crime!
        Beijos!

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