16 – O garoto estranho da rua de baixo


O final de semana a três foi, para mim, uma terapia. Desde meu último trabalho, antes mesmo do Jornal, não conseguia me desligar das responsabilidades e férias ou pequenos feriados, há mais de um ano não faziam parte de meu calendário pessoal.
Sim, sou um pouco workahólico, confesso – bastante workahólico, na verdade -, mas por trás de toda essa preocupação e algumas noites em claro existe um pequeno prazer no trabalho… em fazer algo, de alguma forma, que seja relevante. Quem não quer fazer a diferença algum dia?
No ambiente de trabalho ou na vida pessoal, sempre acreditei que conseguiria deixar minha modesta marca, ou o meu “pequeno verão” (relacionando com a tal máxima de que “uma andorinha só não faz verão”) por aí.

– E sua infância, como foi Rafa?
Perguntou Ricardo, se enchafurdando na areia molhada da praia de Guaecá. Como uma criança de seis ou sete anos, Rick cobria as pernas enquanto ouvia nossas histórias, curioso e ainda mais à vontade. As duas últimas noites juntos foi além da expressão carnal que o sexo a três representa. Estávamos realmente ligados, como bons amigos, amantes, e isso era instigante e soava estranhamente natural.
– Foi ótima, tranquila… sem pressão. Minha mãe sempre foi presente, meu pai nem tanto. Meu irmão é pouco tempo mais novo que eu mas não somos tão próximos, porém nos últimos tempos, com a chegada do João, a coisa mudou bastante.
– O cunhadinho querido?
Demos risada. Ricardo era charmoso e divertido, mesmo com metade do corpo enterrado.
– O Rafael está exagerando… mas acho que sou legal sim. Deve ser a falta da minha família, eu acho…
– E o seu primeiro amor?

O meu primeiro amor cara… foi quase caso de judô e polícia!

No ano de 1995 eu já sofria de amor… acreditem!

Dona Lúcia, minha avó, sempre dizia que haviam cinco coisas nessa vida que você não conseguiria fugir: morte, impostos, cultos dominicais, da língua voraz dos outros e do amor. E assim, aquele menino hiperativo e pentelho viveu nas ruas asfaltadas e vielas requintadas da pequena (hoje média – quase grande) Bauru, no interior de São Paulo.

Enquanto meus amigos dizem que quando pequenos já sabiam “o que eram e queriam”, penteando Barbies, Suzies e brincando na casinha de madeira do fundo da escola, eu nunca tive tanta certeza assim. Filho de pais protestantes, raramente se falava sobre sexualidade em casa, embora houvesse espaço para isso. Não pensem que meus pais eram daqueles crentes fervorosos, que se penalizavam por tudo, pelo contrário, até tínhamos uma TV preto e branco de dez polegadas no fundo armário, escondida dos irmãos… enfim, tive uma infância feliz, normal, sem grandes traumas.

Minha mãe, professora, travava longas batalhas pela educação desse país, lecionando três períodos para garantir para mim e minha irmã todo conforto que tivemos. Meu pai, obviamente ausente, dividia seus dias entre o trabalho, a igreja e a amante. Dentro de casa havia um respeito sem igual. Era “senhor” para cá, “sim senhora” para lá e consigo contar nos dedos as surras que tomei por ser inquieto desde que me conheço por gente. Bastava um olhar torto ou um “em casa conversamos, rapazinho”, que já sabia que era hora de dar um tempo na balbúrdia, quase sempre comandada por mim.

Um líder nato, posso dizer sem medo. Talvez por isso minha irmã me odeie até hoje. Definitivamente roubei todo espaço que ela deveria ter graças à nossa diferença de idade de seis anos. Assombrei sua pré-adolescência, sua juventude e sua quase fase adulta com peripécias (ainda se usa essa palavra?) e espetáculos que adorava encenar para todos. Típico de “artista mirim”, era o centro das atenções onde quer que estivesse. Sequestrava suas bonecas e arrancava suas cabeças, comia seus batons de fruta (quem se lembra, daqueles potinhos de uva, maçã verde – morango era meu favorito) e conquistava seus amigos com o humor ácido e exageros que nós, gays, temos em nosso DNA.

Natallie, se estiver lendo isso (espero que não), saiba que te amo, me desculpe, e que não tinha culpa de ser assim… eu acho.

Cresci em um bairro tipicamente familiar. Na rua aprendi os palavrões mais clássicos (que hoje percebo que eram leves, mas não para minha idade), andar de bicicleta, fazer pipa com cerol, roubar no bafo (aquele jogo “manual” com figurinhas. Quem se lembra?) e muito sobre reprodução humana. Meus primeiros “troca trocas” aconteceram no quintal de casa, quando a empregada estava na sala dos fundos tirando o pó dos armários, que minha mãe, zelosa e opressora, fazia questão de passar o dedo como naquelas novelas anos 80, onde a patroa megera olha fixamente para a ponta dos dedos buscando vestígios de serviço mal feito. Sim, dona Carmem tinha tempo para isso, acredite.

Na mesma rua vivia Samuel, o filho da dentista. Mãe solteira (ainda um absurdo para Bauru), doutora Solange cuidava de seu rebento como um príncipe… e para mim era isso que ele era. Dono dos olhos mais verdes que já tinha visto, Samuel mexia comigo de uma forma diferente dos demais amigos, e isso poderia ser um problema anunciado. Quisera eu me sentir feliz ao lado de Mariana, minha dupla de festa junina por quase todo jardim da infância, como era ao lado daquele garoto.

Ainda assim, aos nove ou dez anos de idade, ter melhores amigos, aqueles que você poderia confiar toda sua coleção de Tazos ou até mesmo um álbum de figurinhas dos Power Rangers (o do pirulito vermelho) não era algo tão incomum, mas certamente incomodava Solange.

Na rua Boa Esperança eu era o “pacificador”. Ao contrario dos dias de hoje, que a vida me fez bicho alerta todo e qualquer tipo de ameaça, eu era o tipo de criança de poucos inimigos e que facilmente se encaixava em todas as turmas. Com os garotos da “ruinha” eu jogava futebol e cheguei a quebrar os dedões do pé chutando uma bola de capotão velha. Na avenida era um dos melhores amigos do Tomie e dos meninos donos de Super Nintendo. Como nunca tive “oficialmente” um video game (ou televisor), para participar da turma emprestava minha ficha na locadora e a piscina as quartas e quintas-feiras… graças a esse escambo perigoso endividei meus pais em mais de duzentos reais – uma fortuna para a época -, em fitas de jogos e filmes de suspense b. E, claro, tinha na penúltima casa da rua de cima (ao lado da padaria), meu refúgio com Samuel, que não podia sair pois sua mãe, a doutora, era obcecada por germes e contaminações. “Você lavou as mãos antes de vir aqui?” era uma das indagações favoritas de Solange, que precisou se tratar de seu Transtorno Obsessivo Compulsivo, vulgo TOC, poucos anos depois, após o estranho episódio em que lavou sua casa (e o Samuel) de água sanitária e cloreto de sódio, quase causando uma chacina suburbana.

Voltando para minhas descobertas, me lembro de Wesley. Um dos garotos mais velho da turma era também o mais experiente. Foi ele que me ensinou que mulheres “sangravam para ter filhos”, após o terrível incidente na casa de Tomie, quando vi um papel ensanguentado no banheiro e corri pedindo ajuda no meio do jogo de “mata-mata” no quintal. Com Wesley também descobri que um dia seria como ele, e também iria “afogar o ganso” com as garotas.

16 - Garoto estranho da rua de baixo
– Mas o que eles fazem de errado?
– João, deixa de ser tonto. Afogar o ganso é transar!
O assunto parou por ali, mas não minha curiosidade. Na mesma noite, durante A Praça é Nossa, indaguei a todos da mesa o que era transar, após ouvir novamente a estranha palavra em uma das esquetes do Jojoca e da Maria Santa.
– O Wesley falou que eu vou transar… o que é isso?
Meu avô, seu Orlando, engasgou com a comida na mesma hora. Meu pai levantou para acudi-lo enquanto minha avó e irmã brigavam com minha mãe, questionando meus modos e minhas amizades.
– Isso é culpa dessas más companhias!
Indicava minha avó, tirando um dos copos caídos sobre a mesa. Enquanto isso meu pai, como sempre tirando o corpo fora de todo e qualquer problema, indagava:
– Agora explica para ele, Carmem.
– E eu lá tenho culpa disso, Pascoal! Eu trabalho o dia todo, você contratou uma emprega que mal cuida das roupas, é lógico que o menino vai pra rua.

E assim instaurou-se mais uma guerra civil em minha casa. Uma de muitas que a família Freitas protagonizaria com o tema João, A Praça é Nossa ou sexo.

Meu primeiro triângulo amoroso… e eu nem sabia o que isso quer dizer

Na semana seguinte ao incidente do jantar eu ficaria de castigo sem saber. Não poderia andar com Wesley (“ele é muito velho para ser seu amigo”) ou descer até a ruinha, me sobrou brincar em casa, ir até a casa da família Tomie e voltar (sob forte escolta de Nina, a nossa nova empregada) e algumas tardes na casa de Samuel. O último roteiro era, para mim, a maior das recompensas.
Brincar no período da tarde na casa de Samuel era muito melhor que após o colégio ou aos finais de semana, afinal a louca da mãe dele estava trancafiada no consultório, logo a frente de sua casa, e não nos importunaria mandando lavar as mãos a cada meia hora e não sentar no chão ou no quintal. Sua avó também morava lá, mas era tão alheia a tudo e obstinada por seu ponto cruz, que não atrapalhava nossas horas e horas montando Lego, vendo clássicos Disney e nos divertindo com “brincadeiras de mão”, essa proibida por ambas as mães.
– Meu tio é lutador de judô!
Bradava Samuca, me agarrando e levando ao chão. Eu, um pouco mais velho encorpado, pouco me importava em ser o perdedor, queria era ser abraçado por ele todo o tempo. Entre um ippon e outro, corria pelos corredores da enorme casa de Samuel me escondendo do “pequeno ninja”, quando me deparei com uma fresta de quarto nunca antes aberto.

Naquele dia um novo mundo se abriu junto daquela porta. O tio de Samuel, Jonas, o jovem judoca de vinte e poucos anos, gostava de treinar praticamente sem roupa em seu enorme quarto com sacos de areia e outros apetrechos bastante másculos. Ele viu o intruso e gostou da ideia de ser observado, desferindo golpes cada vez mais fortes no pobre saco vermelho, enquanto exibia-se em poses e chutes que torneavam ainda mais seu corpo rijo e moreno de sol, contrastando os olhos verdes amendoados e cabelos loiros.

Aquele seria o primeiro de muitos triângulos amorosos da minha vida. Estava apaixonado por dois membros da mesma família, e pouco sabia o que aquilo queria dizer.

Ao longo dos anos ouviria histórias de paixonites por professores, estrelas da música, irmãs mais velhas e até mesmo alguns complexos de Édipo (ou Electra), que imediatamente me remeteria a Jonas. Com uma década de vida provaria o sabor do primeiro amor e não poderia compartilhar com ninguém aquele sentimento inigualável da descoberta.
Sabia que havia algo errado, mas não sabia discernir o quão gay ou encrencado estaria por ser apenas eu e simplesmente sentir. De qualquer forma, os demais dias e semanas contavam com uma frequência quase insalubre de visitas a casa de Samuel, que começavam logo após o almoço e terminavam um pouco antes do jantar, após incessantes ligações da minha mãe para voltar para casa. Enquanto Jonas (achava que) tinha ganho um grande fã de artes marciais, Samuca tinha ganho um concorrente em sua amizade e eu o homem da minha vida. Chegando mais cedo conseguia acompanhar o treino desde o início, incluindo as trocas de roupa, que me davam visões ainda mais especiais de seu caralho quase adulto e seus pêlos pubianos, que muito me intrigavam.
– Você não quer ser mais meu amigo João?
Perguntou Samuel, cansado de ficar ao meu lado assistindo o treino.
– Acho que gosto mais do seu tio, Samuca.

Aquele seria o primeiro de muitos corações que partiria em minha vida. Sem saber, havia dispensado um amigo, que talvez, subconsciente, também gostasse de mim.

E não é que o filho da puta deu o troco que eu merecia?

Precisamos falar sobre o João, dona Carmem…

No dia seguinte, meio dia e meia, já calçava meus tênis para subir a Boa Esperança. Na segunda-feira sabia que Jonas não só treinava luta como também fazia abdominais e natação… dessa forma, o “plus” era sua troca de sunga e os ângulos deitados, onde o ajudava a subir o máximo que podia durante uma série e outra de abdominal cruzado. “Ele tocava minhas mãos a cada exercício, eu era importante para ele”, fantasiava, dentro de minha mente inocente, pueril.

16 - Garoto estranho da rua de baixo 2

Ao chegar na casa de Samuel, ninguém atende e eu me desespero. Começo a gritar seu nome, de dona Irma, a avó disléxica, e até de Solange (muito contra minha vontade), mas é Jonas que me atende.
– E aí Johnny, garoto!
Assim ele gostava de me chamar. Dizia que vinha de um desenho que assistia na extinta Manchete. “Ele me chamava de algo especial”, era tudo que importava.
– Cadê o Samuca?
– Entra aí… ele está nos fundos com um amigo de vocês.
“Amigo nosso”? Desde quanto Samuel tinha amizades na rua? Sua mãe jamais deixaria que alguém diferente entrasse em sua casa… Samuel não tinha anticorpos para isso.
Era Wesley, o garoto mais velho. Segundo os dois (e eu perguntei para os dois, separadamente), Samuel havia tido uma breve alforria até a padaria e voltou com o novíssimo sorvete Frutilly, e um amigo.
– Oi João!
Me cumprimentou Wesley, no meio de um Yoko-Wakare, deitados extremamente próximos. Sua cara, ensopada de afronta e suor, me deixou furioso e descontrolado, me fazendo voar sobre os dois e, sob a torcida de Jonas, bater em Samuel… minha primeira vitória!

Ding dong! Ding dong! Ding Dong!

A campainha toca freneticamente. Minha mãe, prestes a sair para seu segundo turno de trabalho, abre o portão ansiosa e assustada.
– Solange! Que susto… está tudo bem!?
– Precisamos falar sobre o João, dona Carmem…

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