13 – E assim se fez a nossa experiência a três

PARA UMA MELHOR EXPERIÊNCIA, COLOQUE SEUS FONES E CURTA A PLAYLIST QUE PREPAREI PARA ESSE CAPÍTULO


Um novo dia nasceu, e com ele novas expectativas. O caso de Elton e todo suspense envolvendo o Rent, Yohanna e o tal “assassino arqueiro” não saiam da minha cabeça, mas era hora de respirar e fugir um pouco, pelo menos por um final de semana.

Passei o dia em casa, assim pude colocar em ordem coisas do trabalho, arrumar uma mala pequena, dois livros (que há meses estava “terminando de ler”) e esperar alguma notícia do meu editor com a matéria que escrevi na madrugada anterior.
– Você acha que ele vai pensar em publicar algo assim, João?
– Tenho certeza que não… mas que pelo menos entenda qual é a ideia.
– São só suposições, embora a gente saiba que o Elton está sendo manipulado dentro da cadeia. Precisamos de mais provas, e de um jornal que tenha coragem disso.

Afirmava Clara, acendendo seu décimo cigarro naquela tarde. Sempre fui fumante “recreativo”, ou em outras palavras, tinha preguiça mesmo de abandonar meus dois cigarrinhos do dia e trocar essa válvula de escape por comida ou algo menos prejudicial. Aquela chaminé que meu apartamento virou me deixava um pouco irritado… uma das várias neuras de quem mora sozinho.

Nossa viagem para São Sebastião estava marcada há algumas semanas. Rafa precisava descer para o litoral e acertar alguns assuntos da casa de praia da família, eu aproveitaria para botar os pés no mar, tomar um ar fresco e repensar minha vida. “Você está um caco, vai tomar um sol e estarei aqui, esperando por você”, falou Clara ao se despedir de mim naquela sexta-feira quente de março. Acho que ela tinha razão.

Meu celular vibrou entre as roupas em cima da cama, era uma mensagem de texto, do Ricardo:

“Vou para sua casa ou vocês conseguem me buscar no metrô Tietê?”

Meu coração disparou. Tinha esquecido dessa história, ou achava que era um convite por educação feito no momento. O caso é que havia comentado com o Rafa de chamá-lo, um pouco antes de toda a história do teatro e do Rent, ele convidou Ricardo que topou de primeira.
Seria isso um sinal de que todos estavam interessados em algo mais? E se não desse certo? Alguém broxasse ou, na hora, não rolasse química?
Não foi o que aconteceu comigo e com o Rick na faculdade há alguns dias, e estava sentindo com peso na consciência por aquilo… “O Rafa precisava ter essa aproximação, ou definitivamente estaria traindo ele”, pensava em voz alta olhando para a mensagem.

“Podemos te buscar. Você vai mesmo?”

Respondi surpreso. Só depois me dei conta que parecia uma negativa, ou que não estava afim que fosse. Ele me respondeu colocando toda aquela responsabilidade do momento sobre mim:

“Eu vou, a não ser que você não queria”

Rafael estava atrasado, como sempre, e eu com aquelas borboletas no estômago. Um misto de entusiasmo e agonia me tomava conta enquanto olhava para o relógio, a mala sobre a cadeira e a televisão ligada, passando o jornal das sete sem volume. O telefone tocou, interrompendo o momento de reflexão:
– João, é o Maia.
– Oi Maia… recebeu meu material?
– Que porra é essa, João!?
Fiquei em silêncio, decidi esperar que continuasse.
– Responde…
Fodeu. Respirei fundo e “meti o louco”, como dizia um amigo de faculdade.
– Caramba, passei o dia escrevendo isso, Maia.
– Eu não estou falando do texto, estou falando dessa história de polícia metida em prédio, de teoria da conspiração contra o seu amigo, de você indo na cracolândia, João.
– Ah sim, isso aí…
– É maravilhoso, é jornalismo! É uma insanidade, rapaz!
Soltei o ar que havia prendido há um minuto. Que alívio ouvir aquilo. Até poucos segundos jurava que estaria na rua ou que tomaria aqueles esporros monumentais dele. Maia parecia um frouxo, é verdade, mas sabia que por trás daquela barba branca e óculos fundo de garrafa habitava um pequeno vanguardista, guerrilheiro dos ideais jornalísticos.
– Está falando sério!? Como seguimos adiante?
– Nós não vamos seguir adiante, garoto.
– Mas, você disse que o material…
– Está do caralho, João! Mas, você acha mesmo que eu consigo colocar isso num jornal desse tamanho sem nos enforcarem no meio da Paulista!?
– E se nós falássemos com o pessoal de grande reportagem, da rádio…
– Eu teria que ressuscitar pelo menos três gerações de Abdalah para ter algum tipo de resposta da diretoria, rapaz… vamos deixar isso quieto.
– Eu não vou desistir, Maia.
– Olha só, João, eu não sei o que estou fazendo ainda discutindo com você esse assunto. Era pra você estar com o pé na areia, fumando um por mim… a não ser que queria voltar pra cá, tenho dois fechamentos pra fazer e um especial sobre “doenças crônicas da terceira idade” pra você cobrir.
– O Rafael está vindo me buscar, já…
– Antes de desligar, me escuta. Você é cabeça dura e eu sei que não vai deixar de lado essa história toda… eu não deveria te incentivar a isso, então se você sonhar em falar pra alguém que estou te ajudando eu vou pessoalmente aí na Luz te entregar a demissão. Anote aí…

Eu não estava errado sobre ele, pensei procurando por um papel e caneta sobre a bagunça da mesa.

– Fale com o Caio Nascimento, é um freela nosso. Ele ganhou espaço na internet depois de denunciar duas mortes de pessoas no centro, por policiais… ele pode te ajudar de alguma forma.
Maia me passou o número do jornalista, que novamente cruzava minha vida. Não podia ser coincidência mais uma pessoa me colocando ele na história, sendo assim anotei o telefone e coloquei um lembrete, para que ligasse no domingo, “sem falta”.

13 - FINALMENTE SE FEZ EXPERIENCIA_a

– O Rafa chegou, Johnny!
Gritou Clara, da cozinha. Havíamos combinado que ele ficaria em casa cuidando da minha gata enquanto viajava. Eram poucos dias fora, mas eu sou pai (e um pouco possessivo), não queria que meus colegas de apartamento tomassem conta da Artemísia.
– Diga que estou descendo.
Juntei minhas coisas, dei um beijo de despedida em Clara e pedi que me ligasse se tivéssemos novidades sobre o caso. Óbvio que ela disse que não faria, mas sei que, inquieta como eu, certamente me ligaria e enviaria mensagem.
– Divirta-se!

Cento e setenta quilômetros e todos os álbuns de uma tal Vanesa Martín

No carro, em direção ao ponto de encontro com o Ricardo nada aconteceu. Rafa falou dos problemas da empresa do pai (que trabalhava em paralelo com a produtora), os fricotes da mãe e outros problemas rotineiros e familiares. Eu, ainda esperando que Rick não aparecesse, só torcia para que aquilo tudo não fosse apenas um mal entendido. Até hoje Rafael afirma que “não esperava nada daquela viagem” e que para ele “éramos três amigos passando um final de semana juntos”, e eu dou risada.

Será que deixei de acreditar na inocência e só penso em sacanagem, como falei no Capítulo 1 desse diário?

De qualquer forma lá estava Ricardo. Com um mochila grande na mão e outra nas costas, segurei o riso lembrando da primeira vez que fui para o litoral norte com o Rafa.
– Acho que alguém vai se mudar para lá.
Comentou Rafael, adivinhando meus pensamentos. Quietos, recebemos Rick sem muita cerimônia, como se fossemos amigos há anos.
– Será que estou levando tudo que preciso?
Falou Ricardo, ironizando a própria situação. Todos rimos e seguimos em direção à Marginal, em busca da rodovia Carvalho Pinto.
Durante o caminho acendi meu baseado, como de costume, e coloquei minhas playlists indie “diferentonas”, como de costume. Ricardo gostava de encostar a cabeça próximo ao nossos encostos do banco da frente, o que me deixou de pau duro do início ao fim da viagem. Sua voz rouca de moleque, os poucos pêlos de uma barba “recém nascida” roçavam meu ouvido… tinha certeza que fazia de propósito, e eu estava adorando aquilo.
– Falei para vocês que estou de viagem marcada?
Perguntou Rick depois de uma hora e pouco de trajeto. Claro que era novidade aquilo, e um sinal de que possivelmente teríamos pouco tempo juntos. “Calma aí, João, já está pensando em mais tempo com o cara?”, me perguntava, sorrindo.
As outras quase duas horas de viagem se resumiu no intercâmbio do Ricardo para a Espanha e Vanessa Martín, uma espécie de Marisa Monte espanhola, com uma batida suave e quase pornô. Falou de sua universidade em Madri e outros detalhes meticulosos que não entendi, afinal estava chapado e pensando na trepada de mais tarde. “Será que ela ia acontecer?”, “Estava preparado para aquilo”… digo, não só no sentido psicológico, mas físico. Será que minha “duchinha” tinha sido eficiente? Quando começamos a namorar (e por tanto tempo) nos importamos menos com “acidentes” ou coisas do tipo. Mas que caralho estava pensando nisso numa hora dessas?
– Essa é a parte que o João mais odeia… a descida da serra.
Falou Rafa, segurando minha mão e tentando me colocar de volta na conversa. Chegar na serra significava que a) era hora de ficar enjoado, então, foco na estrada, b) estávamos chegando. O frio na barriga voltou, a vontade de desistir daquela ideia doida de ménage à trois e deixar claro que éramos todos amigos curtindo um final de semana de sol.
– Estamos chegando, é isso?
Perguntou Ricardo, indo para o fundo do carro. Será que também um sinal de desistência? Fiquei aliviado, mesmo assim pensando que podia estragar as expectativas dele, ou as nossas. Foi a primeira vez que pensei em mim e Rafa como uma única pessoa, além das contas de casa e a ração da Artemísia. Mentira, devo ter pensado em outras situações, mas achei fofa aquela sensação, que nos acompanharia por várias outras transas a três.
– Já dá pra ver a cidade. Consegue enxergar daí?
– Vou voltar pro meio. Tudo bem para vocês?
Perguntou colocando a mão por trás de nossas cabeças, deixando claro que naquele momento estávamos ligados de alguma maneira… e não tão cedo isso acabaria.
– Tá tudo bem, Johnny?
Perguntou Rafael, apoiando a mão sobre minha coxa. Meu pau, agora meia bomba, travava uma luta contra as centenas de situações que pairavam na minha cabeça confusa… “parece que só uma estava confusa naquele momento”, refleti, e sorri acenando um “sim” para Rafa e me deixando levar pelo momento. Os três olhando para a imensidão da cidade, iluminada, naquela noite quente e praiana.

13 - FINALMENTE SE FEZ EXPERIENCIA_b

Isso não é pornô, João… quer chamar o menino para vir aqui?

Rafael fez questão de mostrar a cidade pela beira mar, como sempre faz com os novos passageiros, e eu só pensava em chegar em casa. “Acho que vou me trancar no quarto, fingir uma dor de cabeça ou um sono profundo”, pensei como últimas tentativas de fuga.
– Nem sabia que Caraguá era tão legal…
– Na verdade tem outras cidades bem mais interessantes por aqui, Ilhabela e São Sebastião, por exemplo.
Respondia Rafa para o visitante. Olhei para o relógio e só então percebi que a viagem durou levou quase o dobro do tempo. Havíamos pego trânsito na Tamoios mas não tinha percebido, por conta da ansiedade ou do baseado.
– E vocês sempre vem para cá, com mais pessoas?
Perguntou Ricardo olhando nos olhos de Rafa, pelo espelho. Pela minha pequena experiência com ele entendi que era um “tira-teima”, afinal já tínhamos conversado sobre experiência a três ou outras curiosidades diferentes.
– Acho que é a primeira vez… normalmente a gente vem com amigos ou família.

“Amigos ou família”, definitivamente meu namorado era inocente… aquela era a resposta certa para o momento. Pelo menos era o que eu acreditava.

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