12 – Vai com Deus, e que Oxum te acompanhe

PARA UMA MELHOR EXPERIÊNCIA, COLOQUE SEUS FONES E CURTA A PLAYLIST QUE PREPAREI PARA ESSE CAPÍTULO


Na porta do Rent olhei para cima, observando cada janela quebrada, poucas luzes e fumaça que saiam dos andares abandonados. Por um instante pensei em desistir, mas agora, sem táxi e coragem de andar até a rua principal, segui em direção ao meu destino: Yohanna.

Se o depoimento de Elton fosse verdadeiro e não uma paranoia, como havíamos imaginado, a traficante mora no terceiro andar e fora gravemente atingida. Pelo que sabia, de minhas experiências com casos de suspeitos e criminosos baleados (e em alguns filmes policiais), eles não dão entrada em hospitais, acabam se tratando em casa… era essa minha chance.
– Tá procurando o quê, rapaz?
Me abordou um dos “porteiros” no saguão. Com cara de menor de idade (não daria mais que dezesseis anos), o jovem estava acompanhado de dois indivíduos com o dobro da nossa altura, cercado de crianças brincando com um patinete em frangalhos e ripas de madeira.
– Vim ver a Yohanna. Ela está?

Silêncio, eles se aproximam de mim.
– Sou amigo de um amigo dela…
– Tá de vacilo aqui, não tá?
– Eu… eu só vim pra saber como ela está, cara.
– Quer dizer então que o “playba” veio dar rolê aqui na quebrada, pra ver traveco, sem mais nem menos?
Perguntou um dos acompanhantes do menor, com ar de autoridade e dicção quase incompreensíveis. Dei um passo para trás e logo percebi que estava cercado.
– Ficou sabendo que morreu dois aqui, ontem? Vacilão aqui some em dois minuto!
Quase me borrando nas calças, tentei argumentar:
– Na boa, eu não vim para causar problemas… é sério. Eu moro aqui também, na Luz, só quero saber se ela está bem e entender porque meu amigo foi em cana.
– Cana!? Tu é da polícia, mano?

O terceiro elemento, que estava atrás de mim, sacou uma faca grande o suficiente para me deixar paralisado. Estava pronto para morrer, fechei os olhos e esperava pelo pior quando uma voz, descendo a escadaria principal, muda meu destino:
– Deixem de ser imbecis… larga ele Galego.
– Mas, Dona Zinha… o cara falou dos “home” aqui…
– Pelo amor de Deus, meu filho, não vê que o rapaz tá se cagando de medo? Não tem nada de “home” aqui, não. Venha cá, jovem, que vou te dar dez minutinhos de atenção e depois você some daqui. Tá bem?
– Sim… tá, tá bem, eu não volto aqui, não senhora… eu…
– Pois bem, pare então com a bagunça na porta da minha casa e venha cá.
Falou a senhora, vestindo um roupão vinho e chinelos. O Galego soltou meu braço, guardou a arma e deu um leve empurrão em minhas costas em direção às escadas. A mulher, negra e franzina, ignorava tudo que estava a sua volta: pessoas no chão, desacordadas, mais crianças arrastando carrinhos pela metade e até duas prostitutas que tentaram me puxar pelo braço para uma das postas entreabertas. O primeiro andar do La Rentauble era a antítese por si só e eu ainda estava vivo.

12 - VÁ COM DEUS QUE OXUM TE ACOMPANHE

Na porta do 17B, a idosa esforçava um sorriso e pedia que entrasse. O pequeno apartamento era impecável e me lembrava a casa da minha síndica, com quadros antigos, fotos de família e santos… muitas imagens espalhadas pelo corredor impecavelmente limpo. Se estivesse acordando agora naquele lugar jamais diria que estava dentro daquele prédio desvalido no meio da cracolândia.
– Senta aí meu filho, pode tirar o gato.
Insinuava que deveria tirar o gato gordo e adormecido sobre a poltrona da sala. Obviamente  escolhi outro lugar para me sentar.
– Deixa eu ver seus braços…
Puxou meus braços em direção ao seu colo, arregaçando minhas mangas. Em seguida, sem rodeios, abriu meus olhos com a ponta dos dedos, procurando por algum indício de droga.
– Isso é canseira mesmo.
Tentei fazer uma piada, criar empatia, sem sucesso.
– Eu consigo reconhecer canseira quando veja uma. Pois bem, você não é policial, não é cliente, não é doido. O que está fazendo aqui?
– Eu… é, é uma longa história.
– Pareço ter pressa, meu filho?
– Não senhora…

Enquanto contava a história, com o máximo de detalhes que possuía, Dona Zinha alimentou o gato, aferventou o chá de camomila com alecrim (sem açúcar – e tive que tomar) e acendeu um incenso que até hoje pareço sentir o cheiro forte de naftalina e sal grosso. “Vai falando por aí, estou ouvindo tudo”, insistia ao dar início em cada uma das várias atividades que fez ao longo do meu testemunho.
No final, Zinha sentou em seu lugar original, respirou fundo e de forma mansa e pausada decidiu falar:
– Você parece o neto do meio, do meu mais velho. E você deve estar se perguntando, “mas a senhora não é preta?”. Pois sim, meus dois filhos resolveram se amasiar com duas branquinhas, sem graça. Um deles se casou, na verdade, mas eu não fui convidada. Assim como não estive no nascimento dos meus quatro netos. Os dois últimos nunca vi, se mudaram para outro país. Aqui fiquei.
– Sinto muito, senhora.
– É isso meu filho. A velhice chega, os filhos vão, a gente fica aqui, convivendo com os filhos que Deus dá… não os de sangue, mas os que o coração manda. Tem gente fazendo coisa errada aqui? Ô se tem! Tem muito. Mas tem aqui, tem lá em Brasília, na igreja dos crentes aqui da esquina. Vai saber quem tá certo, não é mesmo?
– Tem razão…
– A moça, Yohanna, que eu considero moça, né… ela se sente assim, quem sou eu pra julgar alguém nesse mundo… foi para casa de umas amigas. Ela está bem, ficou bem machucada e ainda nem eu, nem ninguém sabe o que se passa.
– Ninguém viu como esse cara entrou, Dona Zinha? Nem esses rapazes aí na porta?
– “Que esta minha paz e este meu amado silêncio não iludam a ninguém”… isso é Mário Quintana. Só se soube que o tal homem da flecha procurava um rapaz, que frequentava por aqui.
– Ele tinha destino certo, então.
– Ah, sim. Seu destino era dar fim no rapaz que frequentava a casa da vizinha. “O destino deve estar nos olhando com aquela cara de quem diz ‘eu tentei'”…
– Quintana?
– Não é Mário Quintana não, filho. É aquele rapaz bonito, cantor novo.

Bebericou um pouco mais do chá, mexendo lentamente com a colher, tomada por suas mãos firmes e enrugadas. Observei seus movimentos, delicados, em paz. Embora entendesse que a velha tinha sido deixada pelos filhos e decidira por continuar ali, onde um dia fora o lado elegante da cidade, continuava surpreso com tamanha intensidade, poesia e ironia que São Paulo trazia dentro de si.

– Você precisa ir. O prédio vai fechar daqui uns minutos, e estou cheia de rendas pra fazer.
Assim, Zinha me acompanhou até o andar térreo, agora sem as crianças, menos luz e apenas dois dos três rapazes da porta.
– Vocês não mexam com esse menino, tá entendido?
– Tá certo, Dona Zinha.
– Pode avisar o Arcelindo que ele é visita minha.
– Porra, Dona Zinha. Fala assim não do Arcé, ele vai ficar cabreiro com a senhora…
– Olha esse linguajar, rapazinho. Eu troquei as fraldas do seu chefe, você me respeite.
– Sim senhora, Dona Zinha…
Afirmou, de cabeça baixa, o brutamontes agora armado. Ele mesmo abriu a grande porta pesada, emperrada pelo excesso de correntes.
– Vai com Deus meu filho, que Oxum te acompanhe.

Isso não é ficção, meu adorável Poirot

Porta afora, não sabia exatamente o que fazer. Olhei para as duas esquinas e minha síndrome do pânico fez medir qual distância me faria correr menos risco. O celular, que estava sem sinal dentro do Rent, decidiu disparar com mensagens de ligações perdidas e outras que não conseguia ver naquele momento de tensão. Ainda fascinado pela doçura de Zinha e sem grandes respostas, decidi caminhar pelo meio da rua até o final do quarteirão, tomada por gente zumbizeando e cheiro de crack. No final da rua um veículo parado parecia me esperar.
– É ele…
Sussurrei, preocupado e pronto para considerar que estaria de frente com o assassino. As luzes piscavam, como uma mensagem, e o breu que tomava a quadra me fez ficar alerta. Dei meia volta e apertei o passo em direção à estação Júlio Prestes, acreditando que o carro não iria encarar a rua ocupada… não foi o que aconteceu. As luzes se tornaram intensas e cresceram em minha direção, fazendo com que transformasse minha caminhada em uma corrida preocupada, agora sobre a calçada. O carro acelerou, me alcançando.
– João, sou eu!
– Rafa!?
– Pelo amor de Deus, o que você está fazendo? Entra já no carro!

Pulei para dentro do automóvel quase em movimento e lá estava Rafael e Clara, assustados e felizes por terem me encontrado.
– Você é louco, Johnny… por que veio sozinho pra cá!?
– Como me encontraram, Clara?
– Você me mandou as fotos com o depoimento, esqueceu?
– Com um “vai ficar tudo bem” que quase nos matou do coração!
Gritou Rafael, em um tom de zelo e repreensão. Voltamos para minha casa, menos de cinco minutos do Rent, onde contei o que havia acontecido naquela noite. Os ânimos se acalmaram e Clara decidiu dormir comigo, assim como Rafael.
Enquanto minha amiga preparava sua deliciosa e inesquecível “sopa de conchas” da época de universitários duros, meu namorado colocava dois dedos de suco de laranja e vodka (minha bebida querida nos momentos menos quistos), como sabia que precisava.
– Seu chefe me ligou e insistiu que tirasse você da cidade nesse final de semana.
– Ele não pode fazer isso, não agora que estou perto de entender o que está acontecendo!
– Ele está preocupado com você, assim como todo mundo no Estado.
Afirmou Clara, dizendo que havia recebido alguns telefonemas, dentre eles de Caio, jornalista e colega de redação.
– Bem, tenho ainda um dia até viajar. Maia não vai me proibir de ir até o Ton, na delegacia… nós temos o advogado, nós temos o motivo para tirá-lo de lá.
– Nós vamos amanhã para o litoral, João. O Ricardo vai também, para me ajudar a cuidar de você.

Por um instante percebi que Ricardo e Rafael estavam mais próximos do que poderia imaginar, e isso poderia ser um problema. Acostumado com relacionamentos onde você deve a todo instante esconder o que sente (e deseja), me preocupava o fato de que Rafa surtasse ao saber que Rick tinha interesses que iam além dos limites da amizade.
“Imagina se ele soubesse que praticamente transamos no estúdio da faculdade”, pensei enquanto acendia um cigarro na sacada.
Parecia que o turbilhão de suspense havia desaparecido e tinha voltado a ser o cara de dois dias atrás, vivendo meus problemas. Pequenos problemas perto daquilo tudo.
– É nessas horas que entendemos que nossa vida é boa.
Desabafei para Clara, dando um longo trago.
– Você se imaginava aqui, assim, há um dia?
– Com certeza não… mas estou feliz de poder revê-los e fazer diferente dessa vez.

12 - VÁ COM DEUS QUE OXUM TE ACOMPANHE_3

Nos abraçamos. Clara recostou sobre meu peito enquanto olhava para a rua, já adormecida.

Você se imaginava aqui, assim, há um dia?

Rafael trazia mais uma dose de vodka para nós três e contava algumas novidades sobre seu trabalho. Com Clara em meus braços, continuava olhando para a rua, da minha sacada que dava frente para o enorme prédio do Ministério da Fazenda, quando percebi uma figura parada, olhando em minha direção.
– Clara, não se mexa.
– O que foi?
Perguntou Clara, preocupada. Continuei reclinado, olhando para a sombra que estava firme, deixando claro que aquilo era uma intimidação. Com capuz sobre a cabeça, o homem colocou as mãos no bolso e mexia o corpo, demonstrando tranquilidade e resistência.
Rafael se levantou do sofá e veio em direção a sacada. Decidi que não deixaria mais ninguém desassossegado naquela noite, além de mim.
– Não é nada, vamos pra dentro pessoal.

Olhei pela última vez para o encapuzado, desci as cortinas fitando na mesma medida para ele. Aquilo era uma confirmação: eu precisava viajar no dia seguinte.

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