“São Paulo em Hi Fi” relembra glamour da noite gay paulistana

Perucas, maquiagem caprichada, plumas, paetês, muitas roupas e extravagância, claro. O documentário São Paulo em Hi Fi, de Lufe Steffen, relembra as principais casas da noite gay da capital nas décadas de 1960, 1970 e 1980.

O filme, que chega como parte das comemorações pré Parada Gay, está em cartaz exclusivamente no CineSesc, na rua Augusta, sem data confirmada para invadir os demais “cinemas alternativos” do resto do país.

O longa-metragem traz muitas imagens de arquivo de shows e depoimentos de mais de 20 testemunhas que, de alguma forma, viveram aquelas noites regadas à diversão, sensualidade e medo. Lufe entrevista frequentadores e donos de casas noturnas, jornalistas militantes, drag queens e transformistas que dividem com os espectadores suas lembranças e experiências pessoais.

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Entre os entrevistados estão o escritor João Silvério Trevisan, o jornalista Celso Curi, autor da primeira coluna gay do jornalismo brasileiro (Coluna do Meio, 1976), o historiador norte-americano James Green e os jornalistas Leoão Lobo e Mário Mendes. Um dos depoimentos mais emocionantes é o da empresária Elisa Mascaro, proprietária de três das mais importantes casas noturnas da época, o K-7, o Medieval e o Corintho. Há também as lembranças nostálgicas (e às vezes pitorescas) da transformista Miss Biá, da transexual Gretta Starr e da drag queen Kaká di Polly.

O filme oscila entre recordações divertidas e lembranças difíceis de um tempo em que o preconceito e a violência contra gays, lésbicas e transexuais e transformistas era ainda maior. A jornalista e videomaker Rita Moreira puxa da memória um dos momentos de tensão que viveu na noite paulistana: “Eu frequentava um lugar muito interessante – em plena ditadura – chamado Dinossaurus. Ali, nós dançávamos freneticamente, era aquele monte de mulher se beijando, se abrançando, dançando… E pela porta entra uma fileira de soldados (…) Naquela época, eles tinham uma cara pior ainda. Eram uns trinta. Eles dão a volta na pista e nós continuamos dançando. É isso que eu me lembro com grande glória. Eles deram mais umas voltas com uma cara de perigosíssimos e quando saíram, nós continuamos dançando um pouco mais aliviadas. Era horrível aquele tempo, mas a gente conseguia se divertir.”

Além de festas animadas na Homo Sapiens, na Off, na Val Improviso e da azaração nos bares lésbicos Ferro’s Bar, Moustache e Feitiços, São Paulo em Hi Fi também traz à tona histórias de luta contra a homofobia e a violência. James Green relembra a primeira passeata contra a repressão policial, realizada no dia 14 de junho de 1980, em frente ao Theatro Municipal. Segundo ele, cerca de 800 pessoas gritavam “Abaixo a repressão! Mais amor e mais tesão!” em um tipo de protesto até então inédito. “Todo mundo [estava] cheio de alegria. Realmente, foi a primeira vez que gays, lésbicas e seus aliados foram para a rua”, afirma.

Ao final, a alegria acaba se transformando em dor, com os relatos que resgatam o surgimento da Aids. “Se não tivesse havido a Aids, toda essa coisa que a gente está vivendo agora, de aceitação de direitos, a gente teria vivido lá atrás. O verdadeiro retrocesso do movimento gay foi a Aids, porque de repente havia uma doença que só os gays tinham e que só os gays transmitiam. Então, ser gay deixou de ser divertido, deixou de ser transgressivo, deixou de ser moda, deixou de ser charmoso para ser perigoso”, declara o jornalista Mario Mendes.

Sao Paulo em Hi Fi filme

São Paulo em Hi Fi fica em cartaz por um curto período no CineSesc, com quatro sessões diárias, e em breve deve estrear em outras cidades. A programação completa pode ser conferida na fan page do filme.

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