11 – O mistério de Elton Berthold em minhas mãos

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Clara não conteve o choro, nem eu. Embora soubesse que deveria ser o porto seguro naquele momento, as coisas haviam saído do controle e sentia uma enorme responsabilidade por Elton. Fomos até a sacada, onde ela acendeu um cigarro e eu olhei para a rua, ainda sem saber o que fazer.
– E agora, João?
– Eu ainda não sei… o que me assusta é saber que ele está preso e incomunicável. Mais alguém conseguiu chegar até ele? Precisamos pensar em algo…
– Aquele policial, Souza. Ele vai foder com tudo.
– O que houve? O que você sabe?
– Ele pediu um novo depoimento… ele descartou o primeiro interrogatório de Elton e queria que fosse feito outro.
– E qual o problema disso?
– Você não entendeu!? O Elton foi sedado. Mas eu sei que ele estava são quando falou pela primeira vez… eu sei!
– Você acha que ele poderia censurar o Ton ou algo assim?
– Eu tenho certeza disso. Eu passei o dia enclausurada naquela delegacia… eu ouvi todos os rumores. Eles não querem mexer nesse vespeiro. Precisamos ter acesso ao Elton, pelo menos, já que o primeiro depoimento vai sumir, com certeza.

Dentre ideias sem muita propriedade e algumas ações mais concretas, ficamos por mais uma hora no bar. Clara contou que após Elton fazerem todos refém, foi convencido por ela a largar a arma e assim desmaiou, sendo capturado em seguida. Após alguns goles, também falamos sobre nossos momentos, sorrimos um pouco e comparamos as expectativas da época de faculdade com a confusão que estavam nossas vidas.
Clara, mesmo em choque, mantinha a serenidade e equilíbrio que sempre teve em momentos difíceis. Pagamos a conta, chamei um táxi para ela e decidi que iria caminhando para casa. Combinamos que no dia seguinte ligaria para um advogado indicado por um dos atores do grupo e estaríamos lá por Elton, lutando contra a grande maioria de amigos e “não tão amigos assim”, – que já nos julgaram via SMS e telefone durante as últimas doze horas.
– Eu não posso ceder… eu não posso ceder…
Repetia para mim enquanto olhava Clara, partindo. Esse sempre foi meu mantra particular desde que minha mãe havia me colocado para fora da casa, há mais de dez anos. Segui avenida Ipiranga abaixo, passando pelo último portão do Copan quando ouço uma voz familiar me chamando, aos berros:
– Seu Jones! Ô Seu Jones!
– Fala Ceará, o que aconteceu?
– Mais que rapidez é essa rapaz… olha aqui, o senhor deixou sua mala lá na mesa.
Com toda nobreza(e raridade) que havia no ato, o garçom me entregou a bolsa e se despediu, fazendo uma daquelas velhas piadas sobre “não esquecer da cabeça por ficar sobre o pescoço”, ou algo do tipo. Agradeci, e, tentando amarrar novamente a alça da mochila, caminhei em direção a um banco vazio defronte ao Terraço Itália. Um pouco antes de chegar minha mochila abre, derrubando os papeis, óculos e um compilado de artigos da faculdade. “É a segunda vez que isso acontece. Preciso trocar essa merda”, previa, olhando para a bagunça no chão.
Agachado, tentando colocar ordem na papelada antes de jogar tudo para dentro da bolsa novamente, me deparei com o calhamaço entregue por Ricardo antes de sair do carro. Além da capa, visivelmente rasgada, estranhei o papel timbrado diferente das pesquisas enviadas por email e logo me dei conta do que tinha em mãos.
– Aquele miserável roubou o depoimento do Elton!

11 - O MISTERIO DE ELTON EM MINHAS MAOS_01

Sim! Era exatamente isso! Rick, ligeiro como era, deve ter aproveitado os desencontros da delegacia e agafanhou os papeis de Souza. “Definitivamente, ele é maluco”, falei retumbante, encarando o documento como fosse meu próprio Santo Graal, e assustando alguns pedestres e dois taxistas, que logo me ajudaram a correr atrás dos outros papeis que haviam sido levado com o vento.

Ali mesmo decidi que precisava desvendar o mistério de Elton e a saber da sua verdade.

O trecho a seguir foi reconstruído por mim, baseado no boletim de ocorrência e demais documentos anexados ao depoimento, em minha posse. Há quase um ano tive que entregá-los para uma nova investigação, que será, em breve, um novo capítulo da história aqui contada.

La Rentauble: delírios e dois andares de sangue

O edifício La Rentauble é uma das mais imponentes biqueiras do centro de São Paulo. Localizado no coração da “cracolândia”(assim a mídia gosta de publicizar) o edifício conta com cinco andares e mais de vinte tipos de drogas disponíveis, distribuídas por traficantes de todas as patentes. De pedra a cristal e alguns sintéticos mal produzidos, maconha e outras substâncias mais leves, o “Rent”, como é conhecido pelos noias locais, abriga não só a boca de fumo como também espaços para uso. Os “parques” (outra gíria comum) estavam em extinção na região da Luz e República após a tentativa frustrada da prefeitura de limpar o centro, oferecendo emprego aos viciados. Dessa forma o La Rentauble começava a dar “pala”, formando filas de pobres adictos em busca daquele pequeno momento de satisfação.

Elton estava lá na noite anterior. Elton esteve lá nos últimos quatro meses, cansado do pouco que a cocaína trazia, em busca de algo mais intenso. “Preciso que me faça sentido”, urrava no dia em que fez seus colegas de trabalho, reféns.
Entrou no La Rentauble com o destino certo: o apartamento 32B. Lá o diretor buscava o aconchego da metanfetamina e de Yohanna, sua dealer favorita. A travesti morava no prédio e atendia “poucos e bons” clientes dentro de sua casa. “Eles precisam de espaço para aproveitarem melhor”, afirmava quando viva.
Enquanto preparava o “vidro” para queimar no cachimbo (por conta das marcas de picadas havia deixado de injetar há algumas semanas, depois de receber um ultimato do produtor do espetáculo e seus patrocinadores) ao lado de outros dois usuários, Hanna ficava de olho na pequena fresta da porta que dava para o corredor, aguardando mais um cliente que tinha hora marcada e religiosamente dava as caras por lá.
Um estampido do lado de fora deixou todos apreensivos, imaginando que a polícia finalmente tivesse invadido o edifício e colocaria fim na Disneylândia do centro da cidade.
Yohanna respirou fundo e pegou seu canivete para averiguar o andar, nesse momento seus clientes deixavam suas seringas e piteiras sobre a mesinha de centro da sala próxima dos cachorros e revistas de moda da anfitriã, seguindo em direção ao corredor, dando cobertura à traficante. Elton, embora preocupado, descontava no cachimbo a ansiedade, dando longas baforadas e tentando se manter minimamente são naquele momento.

Pá! Pá!

Os barulhos, maciços como de portas se quebrando ao meio, se aproximavam e Ton sabia que eles estavam vindo ao seu encontro. “É hora de enfrentar”, sussurrava engolindo seco o amargor da droga. Levantou-se e seguiu em direção à saída do pequeno cômodo, enfrentando os espasmos de seu corpo e o delírio que a pedra estava prestes a proporcionar, cercado de preocupação pelo sumiço dos demais companheiros.
– Alô!? Oi…
Invocava Berthold corredor afora. Sua voz ecoava brevemente, deixando claro sua solidão naquele andar. Seguindo os sons e defrontando o medo que o fazia se mijar aos poucos, Elton se aproximou da velha escada ao fim do corredor abandonado e foi surpreendido por um dos viciados voando em sua direção, tombando sobre os degraus.
O corpo, quase sem vida, foi deixado no chão coberto de sangue e entulho. Ton respirou fundo e, fora de si, enfrentou a escadaria embebida em poças vermelhas e quentes. O caracol para o andar de cima abria caminho para o horror que há pouco havia sido instaurado no prédio, já em estado de alerta. Gritos, latidos e choros de criança completavam a sinfonia desesperadora na cabeça de Elton, que seguia o rastro de morte e descobria mais uma vítima, essa ainda viva e pedindo por socorro.

Havia uma flecha no braço do homem mutilado e por um instante o desbravador pensou fazer parte de seus delírios. “Isso não pode ser real… é hora de enfrentar”, bradava batendo no próprio rosto tentando se despertar. Tentou por duas vezes puxar a flecha do ombro do rapaz mas foi repreendido por duas pessoas e um dos cães velhos, estridente em seu ouvido.
– Me ajude!
Elton avistou as pernas de Yohanna aos pés do quinto andar e correu em sua direção. Ela, assustada com o rosto quase desfigurado, apontava para o alto, clamando que a tirassem das escadas.
– Ele vai voltar… me tira daqui!
Ton tentava puxar a amiga enquanto outros dois moradores daquela ruína tentavam levantá-la pelos pés. Eram quase dois metros de altura e cem quilos para serem carregados por três homens debilitados, o que fazia Elton se perder em suas reflexões, mesmo naquela situação extrema, e observar como “nós, seres humanos, tínhamos a capacidade de nos unir, até mesmo em situações desgraçadas como aquela”.
– Precisamos chamar uma ambulância, não sei!
– Você tá maluco, cara? E você acha que vai entrar médico aqui… e nem querem que isso aconteça, tá ligado!?
Respondia um dos viciados, olhando para uma roda que já se formava em torno da travesti. Elton deixou Yohanna nas mãos daqueles desconhecidos, acreditando que ela corresse menos perigo, e subiu para o quinto andar, reconhecendo os passos sujos de barro e sangue. Nessa altura do prédio, algumas salas estavam completamente destruídas e a luz de fora incidia sobre as paredes derrubadas e os escombros. Ao contrário do ambiente de baixo, com dezenas de desesperados e súplicas, o quinto andar parecia imperturbável ou até mesmo morto, se fosse possível fazer uma associação.

11 - O MISTERIO DE ELTON EM MINHAS MAOS_02
Ton sabia que seria surpreendido e assim aconteceu, quando viu há menos de dez metros uma grande sombra escondida sob um capuz. Era impossível enxergar seus olhos, muito menos os movimentos que fazia com calma e destreza em direção às costas, em busca de um facão que logo se mostraria três vezes maior. Nem mesmo os gritos de medo e bravura de Elton assustavam a figura estranha e recém saída de um conto de terror, e assim, a próxima vítima se deu conta que sua única saída, as escadas, estavam atrás do assassino.
Ele esperava por sua vez, Elton estava pronto para morrer e fechava os olhos, passando por sua mente tudo que havia estragado em sua vida. Foi quando barulhos de tiro invadiram o quinto andar e a figura percebeu que deveria fugir, galgando algumas paredes pela metade e desaparecendo por trás dos destroços.

De nada mais Berthold se lembrava em seu depoimento. Nas anotações finais deixava claro que seu corpo desabou com tamanha força, que sentia até aquele momento (do depoimento) o “peso do chão”, e que tinha em sua perna direita uma perfuração profunda, que não sabia dizer se tinha sido atingido por uma das flechas. As frases finais da oitava página dos autos pareciam interrompidas, com algumas palavras pela metade e outras pequenas associações com o fato como “capuz azul escuro” e “suspeito alto, branco e aparentemente do sexo masculino”.
Me sentei ao lado dos papeis, ainda perdidos no chão, e tentava imaginar o pavor de Elton. Por um instante me compadeci profundamente do meu amigo, não só por sua insanidade, pelas drogas ou outras motivações que o deixaram tão sozinho naquela madrugada.

“Tudo aquilo aconteceu há menos de vinte e quatro horas… deve haver testemunhas ainda, naquele lugar”, imaginei, olhando para um dos taxistas que já havia voltado para sua rotina.
– O senhor quer ajuda com alguma coisa?
– Sim. Por favor, me leve para a rua dos Protestantes.

Síndrome de Capote e o meu ato heróico (e destrutivo)

Desde quando abandonei a arte, decidi pelo jornalismo. Acreditei que poderia fazer algo grande um dia e que certamente viveria para o trabalho, como antes. Não estou falando daquelas ideologias tolas e a incansável busca pela verdade – embora creia nisso, ainda -, mas sim de que não basta ter uma boa história para contar, é preciso fazer parte dela e mostrar para todos. Parece egocêntrico, um tanto paranóico e irresponsável, mas sim, eu fui até o La Rentauble naquela noite.

Conhecia o centro de São Paulo como poucos e morava há quase seis anos por aqueles lados, sabia lidar com noias e outros desafortunados como parte de minha rotina. Também sabia (e os boletim estava ali para confirmar) que os moradores e “passantes” do Rent não queriam confusão por lá, dessa forma tinha esperança de voltar vivo ainda, naquela noite.

Enquanto o carro arrancava Santa Efigênia adentro, fotografei as folhas do depoimento e enviei para Clara. Embora estivesse confiante, talvez pudesse ser uma das últimas mensagens que enviaria para ela… dessa forma enviei um “Vai ficar tudo bem”, em tom de despedida. Um frio na espinha tomou conta de mim, seguido por uma freada brusca do taxista:
– O senhor me desculpa, mas não vou passar daqui da Mauá.
Informava o motorista idoso, olhando para todos os lados e abaixando a rádio AM para dobrar sua atenção. O taxista fitava pelo retrovisor enquanto buscava minha carteira, certamente perguntando para si se estava disposto a me arriscar por droga. Pelo menos é o que eu pensaria em uma situação dessas.
– Então aqui é o suficiente.

Pulei do carro, observei que a Sala São Paulo e o Memorial seguiam iluminados e aproveitei dois carros dobrando a rua para acompanhar o movimento em direção ao prédio.
Naquele momento não podia consultar os dados no celular ou bolsa e confiei apenas nas minhas lembranças, assim segurei firme minhas coisas e segui pela rua tomada por mendigos e outras figuras. A pouca fé que me restava em Deus e demais “forças maiores” eu clamei ao me deparar com o edifício, que parecia uivar ao som do vento que tomava aquela noite úmida de fevereiro.

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5 comentários

  • Reply Rodrigo Costa 1 de junho de 2016 at 04:09

    Quando sai o próximo capítulo?

    • Reply Kinho Mangerona 2 de junho de 2016 at 11:00

      Oi Rodrigo! Está curtindo a série?
      Possivelmente sábado… espero conseguir publicar. 😉

      • Reply Rodrigo Costa 3 de junho de 2016 at 01:39

        To curtindo tanto que li todos os capítulos em menos de um dia! hehehe.

        • Reply Kinho Mangerona 10 de junho de 2016 at 23:16

          Haha estou feliz por isso… viu que tem um novo episódio? _o/

  • Reply Rafael Corrêa 23 de maio de 2016 at 16:49

    Que venha o próximo. Muito bom.

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