10 – Por uma história que deve ser contada!

PARA UMA MELHOR EXPERIÊNCIA, COLOQUE SEUS FONES E CURTA A PLAYLIST QUE PREPAREI PARA ESSE CAPÍTULO


Clara, visivelmente abatida, correu da última sala em minha direção. O policial que estava com o dedo no gatilho abaixou a arma sob o sinal de outro agente que estava com a testemunha, até então. Ricardo, ainda apavorado, soltou meu braço e a respiração, dando um passo para trás e abrindo caminho para que a atriz viesse a meu encontro.
– Clara!
– Graças a Deus! Você está bem?
– Eu é quem te pergunto… você passou o dia aqui?
– Ainda não pude ir embora. Esse é o Souza, investigador responsável pelo caso.

O tal Souza olhou para minha cara e puxou Clara pelo braço, como se ela fosse a causadora do caos que estava sua delegacia. Não podia deixar de falar com a única testemunha ao meu alcance, com a única amiga de Elton naquele momento. Por um instante fechei o corredor propositalmente e estiquei a mão para o detetive, que agora cercado de mais pessoas, não pôde deixar a cordialidade e parou para me cumprimentar.
– Sou João Assali, do Estado. Tudo bem detetive?
– Sim, pois não! Não posso dar entrevista agora, mas terei prazer em falar sobre o caso.
– Estou aqui como acompanhante da Clara… acredite ou não sou um bom amigo dos envolvidos.
– Ela não pode falar até que o inquérito seja finalizado… – diz Souza, demonstrando apreensão e puxando ainda mais forte a testemunha.
Com medo, mas ainda sem respostas, seguro Clara, que se dirige ao detetive, decretando o fim daquela cena patética.
– Você disse que eu já estava liberada, detetive. Não tenho a intenção de falar com a imprensa e João não veio ao meu encontro com esse objetivo, não é mesmo?
– Sim! Digo… não, não irei entrevistá-la. Vim para levá-la para casa.
Ricardo, que também havia entendido a farsa, decidiu fazer parte dela.
– Isso, inclusive o Rafael está lá fora nos esperando.
– Pois bem, te agradeço David, é isso?
– Souza. Detetive David Souza Junior.

Entre Ustras, Magalhães e Souzas Orlandes

Detetive David Souza Junior, do departamento de investigação da cidade de São Paulo, é um dos “bam bam bans” da policia e também filho e neto do antigos coronéis de São Paulo, claro. Uma cidade com mais de doze milhões de habitantes pode facilmente ser confundida com o quintal de algumas famílias que comandam e regulam territórios, provendo de segurança à falta dela. Dessa forma a tradicionalíssima Souza Orlandes tinha em suas mãos toda a polícia da região centro-sul da capital paulista, conhecida como truculenta e “higiênica”.
Uma vez seu avô, Sr. David Souza Orlandes, na época ainda capitão, deu uma brilhante e (não tão) surpreendente entrevista a um jornalista do Diário – acidentalmente – pois havia confundido o repórter com um de seus compadres da academia de tiro.
– Militar sob a minha jurisdição tem que ser higiênico… você pega o arruaceiro no centro da cidade e desova no Anhanguera.
Afirmava de peito estufado, quase batendo continência. Após a confissão fortuita ganhar a capa do principal do maior tablóide do estado, e por consequência o horário nobre da TV, uma averiguação nas matas do Parque Anhanguera revelou pelo menos havia trinta e dois corpos anônimos, enterrados e silenciados no morro.

O coronelismo paulistano não só tratava de “dar cabo” de bêbados e mendigos em nome da boa imagem da avenida São João e suas “senhouras” de bom nome em seus passeios vespertinos. Os guardas de Souza Orlandes também tinham expertise em emudecer jornalistas e outros “intrigueiros e bisbilhoteiros” que ousavam desacatar as ordens do coronel, assim como homossexuais, sob o crime de pederastia. “O ilícito penal de vadiagem está previsto na lei de Contravenções Penais de 42 e pederastia, um câncer que se espalha por nossa cidade, dado ao artigo 235 do Código Penal Militar”, garantia Souza avô ao lado de Brilhante Ustra, já nomeado chefe do DOI-CODI do II Exército.

10 – POR UMA HISTÓRIA QUE DEVE SER CONTADA_01

– Mais problema com eles…
– Quando não é traveco, é noia ou veado.
– Ou todos os anteriores!
– Impressionante.
Zombam três oficiais na porta do corredor, não entendendo o que três “civis” faziam dentro da área restrita do 3° Distrito.
– Jovem, vou pedir que me acompanhe, você não tem autorização para circular aqui. – afirmou um dos militares homofóbicos, enquadrando Ricardo, que estava na nossa frente.
– Esteves! Largue já o rapaz!
Ordenava Souza ao subordinado, que atendeu prontamente, abaixando a cabeça e olhando arrependido ao seu mandante.
– Me desculpe detetive Souza, não sabia que eles estavam com o senhor.
O detetive nos acompanhou até o balcão de entrada e lá preparou sua última armadilha. Sussurrando no ouvido de Fonseca, a policial (que já me odiava) responsável pelo saguão e o tumulto do distrito.
– Clara, sinto muito. A oficial pediu que aguardasse pois precisa repassar alguns pontos do depoimento. Nosso escrivão está no segundo andar, preciso que me acompanhe… – informava Souza, de forma trêmula e dissimulada.
Enquanto Clara tentava se desvencilhar da tentativa de nos separar novamente, eu tinha uma ideia. “Ele vai provar da própria emboscada”, falei para Ricardo que estava ao celular dando o endereço da delegacia.
– Daniela… esse cara de paletó e cabelo arrumado é o responsável pela investigação. Gruda nele!

Missão cumprida com sucesso. A destemida jornalista não só cercou Souza, impedindo que levasse Clara novamente para os fundos, como também foi solidária e compartilhou com os colegas (talvez dez ou doze deles) a novidade em alto e bom som.
– Pessoal, aquele é o Souza! Ele é o responsável pelo caso!
A matilha de jornalistas, ferozes e sedentos por algum furo de reportagem, avançou sobre o oficial. Eu, Ricardo e Clara disparamos em direção a grande porta de saída e ganhamos a rua em poucos segundos. Quase na esquina avistei o carro de Rafael – impossível não enxergar aquele tom de vermelho em um carro esportivo, a qualquer hora do dia ou da noite -, sem entender como havia nos encontrado.
– Ele chegou!
Ricardo, sem perceber que havia entregue o plano dele e de Rafa, apontou para o carro que corria em nossa direção. Só algumas horas depois parei para pensar “que caralho Ricardo reconheceu o carro do Rafa… ou ainda, como ele o chamou!?”.

Pelo retrovisor víamos alguns policiais observando nossa partida, desaparecendo aos poucos, ao longo da rua Aurora. Segurando a mão de Clara, fria e confrangida, pude sentir a falta que os palcos e os velhos companheiros de Campinas me faziam.
– Acho que precisamos de um momento nosso, não acha?
Declarava Clara, pedindo que falássemos em particular. Pedi para Rafael que nos deixasse no Dona Onça, próximo da República e de lá seguisse para sua casa. Ricardo aproveitou a carona e ficou no metrô… a desconfiança e curiosidade sobre os dois continuava pairando sobre minha cabeça, mas naquele momento tinha preocupações maiores.
– Johnny, leve isso com você. Talvez ajude…
Me entregou um calhamaço de papeis que dei pouca importância, mas agradeci. “São as pesquisas da faculdade”, imaginei, recolhendo as folhas e colocando em minha bolsa. O dia parecia ter durado poucas horas, insanas horas que passaram tão rápido e mudaram completamente meus planos.

Agradeci, me despedindo de Ricardo com um beijo no canto da boca.

No bar fomos para a “minha mesa”, a terceira ao lado da janela, que o garçom já corria para arrumar. Era fato que deixava no Dona Onça metade do meu salário todo mês, mas o Ceará fazia questão do bom atendimento para todos. Cerveja sempre gelada, antepasto e a terceira mesa ao lado da janela eram os mimos que tinha por lá, sempre.
– Opa Seu “Jones”… o que vai ser hoje?
– Vodka, uma pedra.
– Eu vou com ela, Ceará. Obrigado!
O simpático atendente pedia licença e Clara, sem delongas, finalmente acaba com o mistério que durante todo o dia me preocupava.
– Parece um déjà vu, não é mesmo?
– O que?
– Falar que o Elton está encrencado…
– Acho que ele é do tipo que sempre está em apuros.
– Você não está entendendo, João… dessa vez ele não está só se autodestruindo, ele corre risco de vida. Os anos se passaram e o Claudio conseguiu fazer mais que foder com a cabeça dele, o transformou em um viciado desenfreado.
Meu silêncio podia ser ouvido por Clara e por tantos outros que viveram os anos em que Claudio fazia parte de mim. As recordações tomaram conta, assim como o frio na espinha de imaginar o que viria.
– Um vício que transformou aquele cara, que eu amei tanto tempo e tanto tempo fiz o impossível para salvar… “salvação” (risos), que pretensão minha…

Foi então que ela me contou uma história que mudaria minha vida daquele momento em diante.

O que aconteceu naquele dia, segundo Clara

Acordei cedo naquela manhã, sem ressentimentos. Era a terceira vez naquela semana que tínhamos ensaio no Cultura Artística e precisávamos aproveitar a rara oportunidade de afinar luz e marcações para a grande estreia.
Talvez fosse a única no grupo que ainda apoiasse a permanência de Elton na direção do espetáculo, mesmo incrédula. Ele estava há um ano fazendo todas as correrias, de Lei Rouanet a locação de espaços e cenografia, não fazia muito sentido aquele “impeachment”, mesmo após a imensa quantidade de faltas e de surtos de Ton nos últimos meses.
– Ele é muito excêntrico… diretor tem dessas, Carlos.
Quantas vezes repeti a frase como um mantra, escondendo do produtor as marcas que Elton havia deixado em mim, e em seu braço. A droga fazia efeito durante as noites, esse era um dos motivos de incentivar a companhia a se preparar nas manhãs frias da semana.

Juntei minhas coisas, duas calças de ensaio, alguns adereços de figurino que testaria em cena e granola com banana (minha nova dieta) e voltei para a cama, deixando um beijo na testa de Eduardo, meu novo amor. “Será que eu era um dos motivos dessa decadência? Ajudei a piorar a vida de Elton com isso?” divagava olhando para o semblante cansado de Edu, desmontado na cama depois de uma noite de show com sua banda.
Sou uma geminiana convicta, sempre foi rotineiro trazer para mim a culpa e os obrigações de qualquer natureza… já aprendi a lidar com isso. Antes de Edu vieram Elisa, Aninha e seu (depois nosso) namorado, Gian… todos nitidamente nocivos para Elton, que ainda me procurava no final de suas viagens de cocaína ou qualquer outra coisa que tinha passado a usar após a mudança de todos para São Paulo.

Do grupo original haviam sobrado quatro integrantes. Flávio Alcântara e a Fer Barros se mudaram para o Rio em busca de trabalhos na televisão, Bianca, após o romance no final do curso com Elton, não aguentou a pressão e voltou para a cidade dos pais, passando a lecionar em colégios particulares e Dudu, uma das promessas da turma, quebrou o pau (e o dente) de Ton, deixando a Companhia ainda nos tempos de faculdade. Hoje ele trabalha com musicais aqui na capital. Um exímio bailarino com uma voz confiante… torço muito por ele.

Uma tragédia anunciada

Da rua Maria Paula para o Cultura eram menos de vinte minutos caminhando, mas atrasada optei por tomar um táxi. Uma das decisões mais acertadas daquele dia. Por alguns minutos teria chegado tarde e poderia ter sido fatal.

A porta lateral estava aberta, sempre estava. O teatro estava cortando verba (viva a arte!) e a equipe de portaria e seguranças caiu pela metade, faziam turnos no horário noturno e aos finais de semana, dias de matinês e eventos vespertinos. A tranquilidade com a segurança do espaço era tamanha que não só a porta lateral ficava aberta durante o dia, mas também os corredores da secretaria (mesmo fora do expediente), administração e da área restrita que dava para os camarins e as docas, onde desembarcavam os equipamentos e cenários pré montados… ironicamente, tudo mudaria e o perigo estava dentro de casa.

Quando cheguei no camarim podia ouvir risos de parte do grupo aquecendo e Leo ensaiando uma das cenas finais do espetáculo com Dani Borba e Graziella, que seria minha substituta caso necessário. O espetáculo, “Antônio e Cleópatra”, era a mais nova investida do Triboos (nome inventado pelo Johnny na época dos trabalhos de grupo da Unicamp – eu particularmente não gostava) e mais uma paranoia de Elton, bem sucedida, com os clássicos de Shakespeare. Depois de dois prêmios importantes e uma longa temporada pela América Latina, nos tornamos um dos principais grupos a encenar o dramaturgo, e continuamos apostando nisso com o passar dos anos:

– Anseios imortais em mim se agitam.
Nunca jamais há de molhar-me os lábios
O líquido de nossa vinha egípcia.
Vamos, Iras, depressa!

Entoava Grazi já caracterizada. A triste cena de Cleópatra pronta para o suicídio retumbava no teatro vazio, deixando ainda mais sinistro e grandioso. Aos poucos, enquanto me maquiava, o silêncio tomou conta do ensaio e, sem entender, fui até a porta tentar ver da coxia o que acontecia.

10 – POR UMA HISTÓRIA QUE DEVE SER CONTADA_02

Sem enxergar o poscênio, voltei para minha cadeira, desconfiada e mas com pressa para ficar pronta antes de Elton chegar. Como era de costume trazia queijo quente e café forte para tentar rebater a abstinência que tomaria conta dele o resto do dia de ensaio…

– AHHH!
– Socorro!
– Elton, o que aconteceu!?
Corri, dessa vez para valer, em direção ao grupo! Corri com o coração disparado e medo do que poderia ter acontecido.

Lá estava Elton, parado sobre parte do cenário destruído, coberto de sangue. Seu corpo tremia em um movimento oposto aos olhos e os dentes, rangendo de forma estridente, não nos deixavam entender o que repetia insistentemente olhando fixo para Graziella e os demais atores em cena.
– Ton, pelo amor de Deus! O que houve!?
Tentava me aproximar aos poucos de Elton, que apertava a espada de Marco Antônio, e mesmo cênica cortava a palma de sua mão deixando o chão do palco ainda mais encharcado de vermelho.
– Se for mais um jogo, exercício cênico maluco desse cara já aviso que estou fora!
Avisava Leo, sem entender que aquilo não era mais um excentrismo de ator.
– Ele virá atrás de mim… ele virá atrás de mim… ele virá atrás de mim!
– Ele quem? Elton, me dá essa espada…
Depois de dois ou três minutos na mesma posição, o diretor saiu de seu transe e avançou sobre Graziella, puxando a atriz pelo pescoço que pedia ajuda, sufocando.
– Morro, Egito… morro! Só por um pouco aqui detenho a morte!
– Elton! Não!

Tentávamos tirá-lo sobre Grazi, já sem ar. Foram necessários cinco pessoas para tirar as mãos e o corpo de Elton de cima da vítima… ele continuava a repetir trechos do espetáculo e se desesperar correndo no palco e caindo sobre as primeiras cadeiras da plateia.
– Silêncio! Não foi César e sua força que derrubou Antônio, mas Antônio de si próprio triunfou!
Com Graziella segura, fui em direção a Elton que parecia voltar aos poucos ao normal.
– Elton, me escuta… olha pra mim, por favor. Você está delirando… eu quero te ajudar!
– Sim, minha amada e bondosa Cleópatra… mas é muito tarde. Por favor, chama a guarda!
Correu para o corredor de saída, que dava para as áreas restritas. Nunca tinha visto tamanha brutalidade em Elton, ou rapidez. Os atores quiseram me acompanhar mas pedi que ficassem. “Eu sei lidar com isso, já lidei outras vezes”, menti para o elenco na tentativa de acalmá-los, especialmente os mais velhos, sentados e socorridos com água e abanadores.

O enorme saguão dava para portas entreabertas e escuras, me deixando arrepiada e com medo de mais um ataque súbito de Elton. Os ares de suspense tomavam conta do corredor que escondia o caminho que ele havia tomado, e seus objetivos. Ouvi uma porta bater nas primeiras salas da administração. “A sala da segurança”, pensei alto seguindo em direção aos ruídos. “Ele me viu, sabia quem eu era… não podia correr perigo”, repetia para mim como uma oração.
Quando entrei na sala dos seguranças não via Elton, apenas seu rastro de sangue que manchava todo cômodo, os uniformes alinhados e penduradas em cabides e duas portas do armário de trabalho dos vigias.
Uma porta arrebentava atrás de mim. Assustada, procurei abrigo por detrás dos equipamentos organizados no canto da sala. Vi outro armário aberto e amassado na minha frente e me desesperei.
– As armas!
Engatinhei pela porta quebrada que Elton acabara de passar e corri para a plateia. Nessa hora a adrenalina tinha me tornado forte e igualmente louca, a ponto de me entregar para ele. “Se fosse assim o fim, que logo assim fosse”, sussurrei ao chegar no palco novamente.
Os oito atores estava parados, a maioria chorando, olhando para Elton segurando um revólver e fazendo Leo de escudo e anunciando:

– Nós todos vamos morrer hoje.

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2 comentários

  • Reply Ana Clara 31 de dezembro de 2016 at 18:44

    Que sensacional, me arrepiei toda! Isso precisar virar filme <3

    • Reply Kinho Mangerona 15 de janeiro de 2017 at 14:48

      Haha obrigado Ana pelo apoio… quem sabe!?
      Um livro pode rolar sim, agora filme seria um sonho <3

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