09 – Esses são os ventos da mudança

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Estacionei o carro ao lado da avenida Rio Branco. Estava há poucos quilômetros da casa do Johnny, me encontrando com seu colega de faculdade… isso era estranho e por um instante a culpa surgiu. Podia ser pela punheta da noite anterior ou por não contar a ele o que estava acontecendo.
Pensei em ligar mas sou péssimo em mentir. “Daria na cara que estava planejando alguma coisa”, pensei. Além disso, ele tinha que chegar cedo no jornal, melhor não atrapalhar.

– Rafael?
Era Ricardo, debruçado sobre a janela de passageiro. Mais franzino do que imaginava, igualmente fofo e jovial, pedi que entrasse, afinal estava parado em vaga de carga e descarga.
– Não consegue parar ao lado do mercado? Assim tomamos café, não sei.
Atendi seu pedido e parei logo a frente. Fomos a um café e lanchonete bastante comum no centro de São Paulo. Não sabia como começar a conversa, tampouco o que fazia ali. Rick, embora novo parecia um exímio tomador de decisões.
– Então o João quer comer nós dois…

Por um instante fiquei olhando para a boca dele, sem entender. Claro, sabia exatamente do que se tratava, mas estava surpreso e intimidado com quão direto o assunto chegou naquela mesa. Estava com ciúmes, mais pela intimidade que meu namorado deveria ter com o garoto do que o assunto em si. Será que, não sendo tão franco assim, meu relacionamento corria riscos?

– Imaginava algo assim, mas falamos pouco sobre isso.
– Olha, seu namorado é um tesão, mas nunca tive a intenção de me envolver com ele. Pelo menos não só com ele. Eu já tive um relacionamento bem problemático e sei bem o que é invadir o território alheio…
– Nós não temos um relacionamento problemático!
Falei, mais alto que de costume. Algumas mesas olharam para nossa direção e pouco me importei para isso. Retomei a frase, respirei fundo.
– Não é o que parece. Eu e o João temos um ótimo namoro… estamos há mais de três anos juntos e temos bastante liberdade um com o outro.
– Entendi.
– Nunca tivemos problemas “comuns”, como ele e eu já tivemos anteriormente… crise de ciúmes, fuçar em celulares um do outro ou até mesmo redes sociais…
– Nunca?
– Bom… até ontem na verdade. Juro que minha maior preocupação era que ele tivesse algum problema que não quisesse me falar, sei lá… do trabalho.
– Rafael, eu e ele não somos melhores amigos, apenas fazemos alguns trabalhos juntos e eu talvez seja o cara mais próximo dele, quando faz matérias na minha sala. Não quero trazer problemas para vocês dois, nem para mim.

09 - ESSES SÃO OS VENTOS DA MUDANÇA_01
Pedi mais um café. O assunto me interessava, e muito. Ricardo parecia sincero e disposto a conversar sobre o que acontecia naquele momento. Nunca imaginei que um desconhecido pudesse trazer tantas novidades para minha vida em menos de 24 horas. Estava instigado a seguir com a ideia, além de conhecer melhor o que vivia naquele momento:
– Por favor, não pense assim. Eu não tenho problema algum com isso… pelo contrário.
– Me explique.

Ricardo sorriu com toda malícia que podia ter naquela manhã e meu pau ficava duro, involuntariamente, sob a mesa.
– Somos amigos, acima de tudo. Nunca nos privamos de paquerar, olhar para o lado, pelo contrário! Sempre nos incentivamos a falar de carinhas que achamos bonito, nos interessamos… acho que temos uma relação muito saudável, e fora de alguns padrões que eu já percebi que não funcionam.
– Sempre gostei muito desse tipo de vínculo. Johnny fala muito de você, com carinho e sempre apaixonado.
– Sim, e eu não duvido disso. Acho que tem um momento que começamos a entender melhor nós mesmos, o desafio de ter alguém do lado sem precisar controlar tudo.
– E o que quer que eu faça, Rafa?
– Quero que continue…
– Continue?
– Quero ver onde isso vai dar.
– Vocês são dois malucos!

Rick, sorrindo, segurou minha mão de forma tão simples e descomplicada que me fez tremer e derrubar a colher de açúcar. Por um instante me senti próximo dele e de Johnny, como há alguns dias não sentia. Que tipo de sentimento era esse, tão novo e diferente?
– Vocês são dois malucos e eu estou adorando isso.
– Faça o que tem vontade de fazer. Eu sei que todos vamos nos divertir com isso.

Conversamos mais meia hora sobre nossos trabalhos, a faculdade e os desafios do mercado de comunicação em crise. Tinha a sensação de conhecer Ricardo há anos, uma química boa e um papo fluente, em extinção nos dias de hoje. Ele me disse que veria João no fim do dia e que ele havia confirmado presença há pouco, por telefone.

Voltei para o carro e para minha vida, ansioso pelo que aconteceria naquele dia e me sentindo (um pouco) arrependido por ter dado minha benção para essa situação inédita na minha vida. Será que iria me arrepender de tudo isso?

Sete horas, vinte minutos e doze lances de escada depois…

– Johnny? Está me ouvindo!?
Perguntava Ricardo insistindo que pulasse de uma escada para outra. O pequeno friso entre os prédios levava para uma porta de emergência, nossa saída daquele surto que tivemos no estúdio. O que poucos sabiam era meu pavor de altura, evidente naquele momento, sobre aqueles quatro andares a céu aberto.
– Sim. O que faço?
– Pula, rápido!
Exclamava se divertindo com aquela cena. Estava apavorado e o tesão, que foi embora junto com minha coragem, era naquele momento o menor dos meus problemas.

Respirei fundo e pulei menos de um metro de distância, o suficiente para passar por aquela fresta duas vezes. Imaginei o que seria de mim se um dia corresse realmente perigo no topo de um prédio, enquanto Rick me puxava pela mão laboratório adentro, com a sala cheia de alunos e o professor bastante enfezado.
Assim que chegamos nos corredores do anexo meu telefone tocou. Um número restrito que já havia chamado três vezes insistia em querer minha atenção. “Pode ser a Clara”, arrisquei.
– Ligação do 3° Distrito Policial para senhor João. Você atende?
– Sim.
– João, é você?

Uma voz trêmula balbuciava as palavras. Era Elton, que usou sua única ligação para falar comigo ao invés de um advogado ou um familiar. Me senti terrivelmente responsável e com uma enorme possibilidade de fazer diferente, dessa vez. Entre uma frase e outra sem muito sentido, Ton pedia ajuda de dentro da delegacia, lugar que ficaria por tempo indeterminado.
– Quero ajudá-lo Ton, o que faço?
– Preciso que me ouça… acho que não tenho muito tempo aqui.
– Cara, o que você está falando!?
– Eles armaram pra mim Johnny. Eles vão me matar…
– Por que está falando isso? Tem mais alguém aí com você?
– Você foi a única pessoa que eu falei e que pretendo falar.
O telefone já não respondia mais.
– Precisamos de um advogado para você, Elton.
Os dois minutos de Elton haviam acabado e um estranho pressentimento
tomava conta de mim.

“E se ele estivesse falando a verdade? E se sua vida estivesse em jogo, de verdade?”.

Corri para o ponto de táxi com Ricardo. Enquanto ia em direção ao carro tentava contar para ele o que acontecia, sem sucesso.
– Eu vou com você… por que corre tanto!?
– Precisamos correr, é por uma história que deve ser contada!

Alucinações, delírios e um toque de milícia

Chegamos na delegacia, lotada de carros de reportagem e curiosos. Dessa vez tinha o direito de entrar e falar com meu amigo, o caminho foi mais fácil e eu estava menos acuado para tanto. Me lembrava do editor gritando no meu ouvido, pedindo que estivesse pronto para levar informações para a redação, mas, acima de tudo meu coração estava apertado com Elton e os demais naquela situação. Dois policiais tentaram me impedir mas Ricardo tratou de me cobrir, chamando atenção dos policiais e tentando explicar o motivo de furarmos a barreira da imprensa.
– Eu fui chamado pelo detido na única ligação que ele podia dar. Tenho direito de falar com ele, policial.
09 - ESSES SÃO OS VENTOS DA MUDANÇA_02
– O rapaz está tendo alucinações senhor… João. Acho difícil que tenha feito isso.
– Foi ele sim, eu quem fiz a ligação.
Afirmou a escrivã, dando autonomia à minha versão e fazendo com que outros dois guardas soltassem meu braço. Dentro da delegacia a mesma policial, olhando para minha identidade tentava me impedir.
– Era direito dele falar com familiar, conhecido ou advogado, não com a imprensa.
– Eu não sou simplesmente um jornalista, sou seu amigo. Sei que ele tem alguma coisa para dizer e posso ajudá-lo.
– Você vai me dizer que estava cobrindo a ocorrência hoje cedo e que, coincidentemente, conhece o infrator?
– Sim! É isso!
– Faça-me o favor… vocês da imprensa, sempre ardilosos.
– Veja aqui, essa foto. Somos nós, em 2006… estudamos juntos, é meu direito falar com ele, Elton ligou para mim.
– Ele está sob custódia do Souza, caro. Não tenho permissão para isso.
– Quero falar com ele, Souza, o responsável.
– Você quer mesmo ajudar o seu amigo terrorista, jornalista?
– Com todo respeito policial…
Procurando seu nome no uniforme…
– Fonseca, não devo tantas satisfações assim.
Ricardo me interrompe, observando o tumulto que aconteceria em pouco tempo com o calor da discussão. Aceitei levá-lo comigo, precisava de alguém consciente naquele momento.

De repente Daniela, a audaciosa jornalista do Hoje, fura o bloqueio e invade a sala de entrada, dando início a um tumulto nas portas que dava acesso ao interior da delegacia. Aproveitei o momento e entrei pelo corredor lateral que indicava “salas de espera”. Sabia que Elton estava preso, mas tinha esperança de encontrar outros envolvidos.
– O senhor não pode entrar aí, segurem ele!
Gritava a policial Fonseca, atrapalhada com os outros jornalistas que seguiram Daniela e tomavam toda a sala. Corri em direção a única sala acesa, para minha (falta de) sorte a última do corredor, quando surge um policial enorme sacando sua arma em minha direção.
– Dê mais um passo e terei que atirar!
Ricardo, que me acompanhava desde a fuga da sala, segura meu braço impedindo que seguisse em frente. O militar continua em minha direção com a .40 em punhos, apontada para minha testa. Naquele momento um longo filme passou em minha cabeça e não estava pronto para que tudo acabasse ali. “Naquele corredor, com luz a meio fio e minha tentativa heróica de encontrar Elton seriam as últimas ações em vida que me fariam ser lembrado por algo”, pensei, orgulhoso de mim e surpreso como por ter sido o único dos meus amigos a não odiar policiais, até aquele momento…

Uma voz invade o corredor e as salas. Um pedido desesperado de ajuda que iria me salvar, mais uma vez:
– Ele está comigo! Por favor, não faça isso!

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2 comentários

  • Reply Jonathan 1 de agosto de 2016 at 15:16

    Estou adorando comecei a ler ontem de madrugada e já to no capitulo 10 não consigo para de ler .

    • Reply Kinho Mangerona 15 de janeiro de 2017 at 14:45

      Obrigado pelo carinho Jonathan! Espero em breve publicar mais 🙂

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