08 – Toda a verdade tem três lados

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Se tem uma coisa que é fato em uma relação é que sempre sabemos quando tem algo errado acontecendo. Não sei se “errado” é a palavra certa, mas existem alguns sinais que precisamos entender antes que tudo se torne uma paranoia.

A conversa ontem no bar da Roosevelt não fazia muito sentido e fui para casa desconfiado de que havia algo naquele convite no meio da semana. Deixei ele em casa e fui para a minha pensando se tinha feito algo de errado… nós e nossa mania de procurarmos um culpado em tudo. Será que nosso namoro estava em crise? Tem alguma coisa que deixei de fazer? Está sobrando ou faltando o quê nessa história?

Segui a Avenida do Estado adentro acompanhado de perguntas que precisavam ser respondidas. Nunca fiz o estilo de cara que se apavora com os desafios de uma relação, traição ou coisas do tipo, mas aquela inquietude seguida de quase uma hora de “apagão” no banheiro, era no mínimo, estranha. Pensei em mandar uma mensagem de texto, peguei o celular e não continuei… acho que os dois precisavam de um momento para processar aquelas informações. Informações essas que eu não tinha, claro.

Três anos de namoro não parece muito, mas tente ser você um casal gay. É foda!

Esse cara é tão estranho que preciso conhecê-lo

Há três anos, quando a rua Augusta ainda cheirava à maconha e libertinagem, dava meus primeiros passos como deejay nas noites de São Paulo. Era tanta balada furada que me fazia pensar se aquele era o caminho que queria para mim ou, assim como minha faculdade de rádio e tv, tinha caído no velho truque da ideologia. De qualquer forma, disse sim a um velho amigo quando fui chamado para estrear sua festa na extinta Avesso, em frente ao Boca Club… quem se lembra disso?

A casa era pequena assim como a lista de convidados. Cheguei cedo, como de costume, preocupado em falhar ou não dar o meu melhor, como de costume. Sei que posso me tornar um ser desprezível nos dias em que toco – pois deixo tudo de lado e passo horas ensaiando insistentemente -, mas ainda acredito que existam público e donos de festas que deem valor ao esforço de se pensar um set, descobrir tendências e, o que cada vez vemos menos na profissão, mixar músicas. Concorda com isso?

A noite prometia ser um desastre, mas pouco me importava. Há muito tempo solteiro e recentemente abandonado pelos amigos decidi desbravar a noite paulistana como nunca tinha feito. Vitor, como sempre rodeado de pretendentes, mais uma vez estava enrolado com o maluco do ex namorado. Diego havia sido contratado pela emissora de televisão onde estagiava e me restavam outros dois bons amigos que nada queriam com festas ou paquera. Era um abandonado feliz e solteiro convicto, podemos dizer assim, que podia ou não trabalhar melhor essas condições. Os poucos namoros que tive não chegavam aos pés dos relacionamentos que conhecia e precisava de novos ares. Meu último romance
mal tinha sexo e discussões… para que me envolver então?

08 - TODA HISTORIA TEM TRES LADOS

Cheguei na casa noturna, arrumei meu case de CDs sobre a mesa improvisada em um palco minúsculo e de frente à pista, essa dividida por uma enorme pilastra mal planejada. Era aquele o retrato da festa. Tocaria até as duas horas da manhã para um grupo de amigos do promoter e mal teria a oportunidade de ser visto. Que merda!
Encarei aquela noite como um grande ensaio onde, assim como em casa, podia tocar o que bem entendesse e dançar sem me preocupar. Seguindo minha intuição decidi colocar uma música que tinha decidido acrescentar ao setlist há poucas horas.
– Que música do caralho!
Exclamava Yuri, o dono da festa, alisando minhas costas de forma mal intencionada.
– É a última da Gaga, chama “Telephone”… com participação especial da Bey!
Respondi aos berros, segurando um dos headphones no ouvido, preocupado com o tempo da música e as mãos que insistiam em me massagear.
– O clipe é incrível, acabam de lançar com a música.
Finalizei, sendo atrapalhado por um bartender que trazia duas garrafas de água para a cabine e quase derruba sobre o mixer.
– Me desculpa, cara!
Lamentava o barman claramente chapado. Não me surpreendia ele estar naquelas condições, imagina o tédio que é passar a noite toda parado esperando alguém pedir água da torneira… imaginava a situação e sorria, olhando para o funcionário que tentava equilibrar os pedidos sobre a mesa.
– Relaxa… eu dou um jeito aqui.
Pegava as duas garrafas e tentava equilibrar sobre a mesa bamba disponível. Aproveitava o refrão da música para caprichar na performance, puxando o celular do bolso e imitando o videoclipe que há pouco tinha visto na internet. Durante a dança acompanhava o bartender, que insistia em me encarar, comentando algo com sua colega de balcão, que dava alguns risinhos que não conseguir identificar se eram “para mim” ou “de mim”.

O rapaz, com cabelos pretos e lisos, ostentava um bonito sorriso e peitoral invejáveis. Ele era daquele tipo de profissional de balada que conhece seus encantos, sabe?
– Ele está olhando para você!
Yuri dava outro berro, me puxando para a pista e imitando meus passos. Ainda não observava o barman com outras intenções até que realmente descobri que eu era o foco da conversa. Como bom leonino, caprichei na performance esperando que, de alguma forma, animasse a noite dos dois atrás do balcão.
– Quem é ele?
– Eu não sei… é um cara novo aqui. Pelo que sei eles contrataram alguns profissionais de casas aqui de perto, acho que vieram do Vegas.
– Esse cara é tão estranho que preciso conhecê-lo.
Yuri ria da minha sentença, me abraçou e rodou no meio da pista, como se realmente me oferecesse ao barman. Ele, por sua vez, atendia o que, provavelmente, seria um dos seus primeiros e últimos clientes da noite. Voltei para a cabine e a noite seguiu com meu ensaio aberto e alguns sucessos pop do momento.
De repente a colega do barman vem em minha direção com um bilhete. Ela entrega o papel e sai em disparada de volta para o balcão. Peguei o pequeno papel amassado, meio sem entender abri:

“OI DJ! TOCA HOT AND COLD DA KATY PERRY? ;)”

Olhei para o bar e lá estava ele, debruçado sobre a pia olhando para mim. Foi o primeiro bilhetinho que recebi com pedido musical e achei fofo demais… mal sabia que passaria a receber, e detestar, cada vez mais pedidos musicais durante a noite. Ao contrário de muitos profissionais não me importo que estão atrapalhando ou algo assim, é que realmente tem pessoas que não entendem muito a proposta da festa.

Toquei a música para ele. Aquela seria a nossa primeira música, de tantas…

“Quando o cara interage muito no Facebook dele, desconfie”

Era um dos “dez mandamentos” do Vitor quando saíamos para comer fora, beber e falar mal de nossos pares. Instintivamente (e juro que foi instinto) comecei a ler algumas mensagens dele nas redes sociais, observar alguns “padrões” e tentar entender o que aconteceu aquela noite. Só tinha dado tempo de tirar a calça e os sapatos e já estava ali, diante do notebook, colocando em prática minhas técnicas de detetive, no melhor estilo Holmes e Miss Marple.
– Rafa, pelo amor de Deus, é quase uma hora da manhã! Abaixa esse som!
Minha mãe gritava do lado de fora. Não percebi que o som estava alto, tampouco que ouvia pela quarta vez “Hot N’ Cold”, nossa primeira música.
Confesso que sou um pouco desatento, em muitos aspectos da minha vida, especialmente quando o assunto é “prestar atenção em detalhes”. De vez em quando Johnny brincava, dizendo que eu tinha “memória seletiva”… nada a ver!
Foi como disse, tive poucos namoros “de verdade”, acho que precisava treinar melhor minha sensibilidade com namorados…

Opa, acho que encontrei alguma coisa.

O nome dele é Ricardo, um moleque, colega de faculdade

Quantos likes, quantas mensagens, e eu nunca me liguei! Olha que descaramento, comentando foto de família… como assim?
Decidi fuçar no perfil do garoto, por curiosidade mesmo. O nome dele é Ricardo, um moleque, colega de faculdade. Até “bom dia” e “boa noite” o tal Rick mandava na timeline… que porra é essa!?
Respirei fundo, suas fotos eram todas privadas. Que raiva! Eu nunca soube que o João gostava de carinhas mais novos, tão novos assim. Será que ele é hétero? São apenas amigos, sei lá… existem vários desses tipo “brothers” por aí, o João é rodeado deles. Não faria julgamentos antes da hora, nunca fui disso. Mas eu ia sim curtir algum dessas centenas de comentários do garoto na página do meu namorado.

Pronto, curti.

Será que nosso namoro estava em crise? Tem alguma coisa que deixei de fazer? Está sobrando ou faltando o quê nessa história?
Eu, novamente, perguntando as mesmas coisas. Estava irritado, instigado e preocupado, tudo ao mesmo tempo. Já se sentiu assim?

Pronto, o fulano curtiu uma foto minha… duas… cinco fotos quase ao mesmo tempo! Que internet rápida é a desse cara? Que tipo de recado ele quer me mandar com isso?

Pediu para ser meu amigo. E agora!?
Será que arranjaria problema com o Johnny? Ele vai achar que sou um psicopata, chafurdando as coisas dele, procurando pêlo em ovo… dos outros ainda!
Aceitei. Somos amigos. “Amigos”, né?
– Muy amigo.
Pensei alto. Comecei minha investigação. Pouquíssima resposta do meu namorado pro cara, que alívio. Sim, uma foto ou outra dele com likes do João. Fotos de Búzios, o garoto exibindo o tanquinho em formação, e a mala. Que bela mala, tomei um susto!
Outra foto, com amigos no carnaval, outra foto de sunga, uma com a família em Bertioga. E dá-lhe o pau marcado na sunga azul marinho, na bermuda curta e justa de corrida… fui ficando excitado olhando para aquilo. Estava com o pau duro, mas puto da vida, que fique bem claro! Havia alguma coisa ali e eu ia descobrir naquela noite.
– Oi Rafa!
Subiu uma mensagem instantânea. Congelei.
– Oi Ricardo.
Retribui sem insistência. Estava curioso com a situação, ou talvez
preocupado. Já tinha ouvido muitas histórias de traição na minha vida, meus amigos podiam escrever uma novela da Televisa com tantas. Mas não estava tão assustado assim, estava com tesão, na verdade.

08 - TODA HISTORIA TEM TRES LADOS_02
– O Johnny fala muito de você na faculdade…
– Bom saber disso, rs.
– Sim… ele fala de mim?
– Deveria?
– Acho que poderíamos nos encontrar para falar disso, que tal?
– Amanhã?
– Posso cedo… depois vou vê-lo.
Marcamos nosso encontro. Seria no centro, próximo de onde passaria para fazer uma entrega ao cliente. O objetivo da conversa eu não sabia, mas queria encontrá-lo.

Nos despedimos, revi suas fotos e aproveitei o tesão. Bati uma longa punheta para sua mala, suas sungas e aquela sensação estranha de desconfiança que me fez gozar grosso e devagar.

– Até amanhã, Rick…

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