06 – Você já ouviu falar na teoria do caos?


A noite gay campineira havia perdido sua traficante favorita e o público, com sede de noites arrebatadoras, se deslocava em massa para os arredores de Viracopos que tinha acabado de inaugurar rotas internacionais para Portugal e algumas capitais da América do Sul.

Toda semana desembarcavam romenos, uruguaios e portugueses carregados de farinha, ecstasy e outros sintéticos, suprindo a demanda da região e parte de São Paulo. O aeroporto local, ao contrário de Congonhas e Guarulhos, não tinha delegacia ou qualquer detector de narcóticos além de um simples raio x e alguns policiais camaradas. Dentre os bons colaboradores do negócio, Jacques, um dos agentes mais corruptos da cidade era também dono do Café Vitre, um puteiro enrustido onde políticos, empresários e outros figurões passavam suas noites fechando uns negócios e “abrindo outros”. Descobri naquela noite que Jacques era um dos novos parceiros comerciais do meu marido.

Era minha vez de fazer o inquérito, e tinha medo do que podia ouvir. Enquanto cuidava de um time de bar em uma festa de formatura, Claudio acompanhava uma balada que tínhamos equipe fixa.

Aqui sim é onde os fracos não têm vez

Ele me encontrou às três da manhã e não esbocei emoção alguma sobre o que descobri naquela mesma noite. Aguardei o fim dos trabalhos e, em casa, tudo aconteceu. Enquanto Claudio tirava a roupa, se preparando para dormir, eu olhava pelo espelho do banheiro em seus olhos:
– Hoje recebi uma ligação, para você, no telefone do bar.
– Ah, é? Quem era?
– Era o Denis…
Um silêncio ganhou a casa, e me deu o poder da palavra naquele momento.
– Ele pediu que te entregasse esse dinheiro.
Com minha mochila de trabalho ao lado, peguei o dinheiro que Denis, ingenuamente havia me entregado. Após aquela ligação no fim da tarde, fingi fazer parte das negociações de Claudio e me encontrei com Denis, que me levou os trezentos reais e “as charadas”, um tipo de ecstasy bastante difundido na região. Claudio, estático e pálido como nunca tinha visto, olhava para mim sem expressão alguma. Sua verdade havia sido desvelada no momento em que ele era o dono de toda lisura naquela relação.
– Ele também pediu que entregasse isso, seu traficantezinho de merda!
Joguei a droga sobre ele, que sentado na cama se jogou no chão, tentando juntar em desespero o dinheiro e os pequenos pacotes de ecstasy que ainda caiam de seus ombros, edredom e roupa. A farsa tinha seu fim, e eu, a verdade mais dura que tive de enfrentar naquela relação.
Dei as costas para Claudio e nossos problemas. Voltei os olhos para o banheiro e deixei que o momento falasse por si.

Continuei olhando para o espelho, que já não era o da minha casa. Voltei para sujo e rabiscado lavabo do Lekitsch ao som de batidas. Socos na porta, e gritos… e Claudio estava ali, no chão. Pequeno e fraco. Em desespero recolhendo o que destruiu o meu amor por ele.

06 – VOCÊ JÁ OUVIU FALAR NA TEORIA DO CAOS_01
Toc! Toc! Toc!
– Você está aí!? Fala comigo, por favor!
Era Rafael. Me virei e estava no banheiro, ainda. Conseguia ouvir o garçom e outras duas vozes que não identificava mas, certamente, tinha deixado de lado minhas memórias e havia voltado ao Lekitsch. Abri a porta e estavam todos lá, apavorados pelo tempo, ainda incalculado, que fiquei trancado.
– Você está bem amor!? Quase morri… Por que não disse que estava ali!?
– Eu não estava ali. Me leva pra casa?

Sim, eu estraguei a noite em que convidaria Rafael para nosso ménage à trois, e estava voltando para a casa confuso, envergonhado e levemente bêbado. Fiquei quase quarenta minutos trancado no banheiro do bar, o que para mim – dentro da minha cabeça -, pareciam meses. Por que aquelas lembranças insistiam em me acompanhar justo naquela noite?
– Você vai ficar bem mesmo? Não quer que durma aqui com você?
Perguntava Rafael, carinhoso como sempre me deixando na porta de casa.
– Eu estou bem. Vou ficar bem… estou com a cabeça cheia por conta do trabalho, é só isso.
Eu e minhas mentiras. Precisava me libertar de tudo isso, mas não estava pronto.

Pulei do carro, e em direção ao elevador do antigo apartamento da Luz só pensava no que tinha vivido há alguns anos, com Claudio. Sempre tive comigo um estranho carinho pelos caras que passaram por minha vida. Ao contrário da grande maioria dos meus amigos, não conseguia guardar rancor por amores passados, desafetos sentidos e nem tinha muita memória para isso.

Tirei o tênis, a calça, peguei no sono sem muito esforço.

“Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…”

Finalmente dormi.

E agora, como faremos com um ator a menos?

– Você vai continuar sem falar comigo?
Perguntava Claudio, pela vigésima vez naquela manhã. Quando acordei o café estava pronto, com direito a frutas e pão tostado com queijo, do jeito que sempre gostei. Todo esse esforço teria valido a pena se fosse para compensar um atraso ou esquecido uma data especial, mas quando se trata de descobrir que seu companheiro está envolvido com traficante de drogas, talvez não seja adequado.

Não toquei em nada da mesa, tomei um banho rápido e fui para a aula. Naquele sábado me reuniria com colegas da faculdade para finalizar o roteiro de conclusão de curso. Embora a faculdade pública exigisse muito dos alunos, meu grupo se virava bem sem mim. O clássico escolhido era “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Shakespeare, obra que todos estavam de saco cheio de trabalhar, mas Elton, o líder do grupo, tinha figurinos e cenografia quase prontos. Em trabalhos finais de faculdade geralmente prevalecem a funcionalidade, não o tesão.

Cheguei atrasado, mesmo dando oitenta no Tapetão. Os olhares atravessados só foram menores porque Elton e Bianca ainda não estavam presentes.
– O diretor do grupo ainda não chegou, ou seja, isso aqui está uma baderna.
Conclamava Eduardo, com ares de líder sindical. Dudu queria que “A Tempestade” fosse nossa peça, assim como metade do grupo, e ele dirigisse. Nesse caso, isso ninguém concordava. Sua passionalidade ultrapassava os palcos e o transformava em um babaca, especialmente quando se tratava de prazos e notas.
– Todo mundo saiu de casa cedo, deixou de beber ontem, fazer o que tinham que fazer para organizar essa merda. E onde estão Elton e a “garota da vez”?
– Menos, Eduardo.
Respondia Clara, ex namorada do Elton e pacifista amadora.
– Agora eu eu tenho que manter a calma, faltando vinte dias para nossa primeira apresentação de banca. Você está certinha, Clara!
Decidi intervir, anunciando minha chegada.
– Oi pessoal. Tudo bem por aqui?
– Tudo ótimo! Tudo caminhando lindamente para o buraco, assim como nosso diretor!
Eduardo saiu da sala, puxou as cortinas e foi para fora do auditório. Na mesma hora entrava Caique, mais um integrante do grupo e meu amigo mais próximo. Dudu esbarrou em Caique, que sem entender, olhou para os cinco alunos que sobraram.
– O que deu nele?
– Eduardo está puto da vida que o Elton mandou SMS avisando que vai atrasar duas horas.
– O que está acontecendo com ele, Clara?
– Com o Eduardo? Eu não tiro a razão dele, gente…
– Com o Elton. Você conhece ele há mais tempo que todos aqui.
– Ele está enfiado na merda, é isso que está acontecendo. O Ton está usando mais do que deveria…
Todos sabiam que nosso diretor gostava de cocaína, mas seu vício estava desmedido. A nova rota de tráfico de Campinas tinha tornado epidêmico o problema e a juventude universitária da região perdera o limite. Mais da metade das faltas no mês eram de Elton, e o culpado era o pó. Desde quando tomou um pé na bunda, meu colega havia perdido seu rumo e pouco podíamos fazer a não ser tentar entretê-lo com novos projetos e ocupar sua cabeça.

Sem saber como ligar com aquele clima e com a cabeça cheia, peguei minha mochila e voltei para Hortolândia. Não podia deixar passar aquela conversa com Claudio, podia parecer displicência ou até mesmo que estava dando consentimento às suas atitudes… isso não podia ficar assim.
A situação de Elton e de tantos outros amigos, jovens e longe de suas famílias, me levavam ao uso desenfreado de drogas e colocava eu e Claudio em uma posição de que “podíamos fazer algo sobre isso”. A culpa, por mais que não fosse minha, estava martelando na minha cabeça durante os quase quarenta quilômetros que separava a universidade do trabalho do meu companheiro.

Acordei.

O efeito borboleta existe, acredite!

Estava em casa, em 2014 novamente. Na noite anterior minha investida com o Rafa não tinha rolado e desde então Claudio não saia da minha cabeça. Perdi hora para o trabalho – de novo, caralho – precisava correr para o Jornal e cobrir mais um dia de eleições. Tomei um gole de café, troquei a camisa e peguei um táxi em direção ao bairro do Limão tentando arrumar o cabelo embaraçado e minha cara de ressaca.
Cheguei na porta e fui avisado pelo segurança que não deveria subir. Não tive tempo de pensar se havia sido demitido ou se os assessores do presidenciável me proibiram de acompanhá-lo pelo simples fato de odiá-lo quando Maia, o editor do caderno de política e cotidiano, correndo em minha direção, aponta seu tablet e uma publicação que me faria acreditar, definitivamente, na teoria do caos.
– Coloquei a Thati no credenciamento hoje, preciso que corra para o Cultura Artística agora!

06 – VOCÊ JÁ OUVIU FALAR NA TEORIA DO CAOS_02

Na tela, um pedido de socorro se tornaria, em minutos, notícia de última hora na imprensa: “Elton Berthold, diretor premiado internacionalmente, mantém nesse momento todo elenco refém no Teatro Cultura Artística. De acordo com a atriz Clara Goulart, que conseguiu pedir ajuda em sua rede social, Elton está fora de si e sob efeito de drogas”.
– Eu conheço esse cara.
– Nós sabemos disso. Queremos que você vá até ele.

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