05 – A primeira-dama do herdeiro da contravenção

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Passaram-se os dias e não ouvimos mais falar de Melinda. Ela nunca foi do tipo que se amedronta, todos da noite sabiam disso. Sendo assim, esperava por uma represália que mais tarde percebi que nunca viria.

Meu relacionamento com Claudio não estava bem e parte disso era culpa da droga e da rotina. De segunda a sexta-feira ia para o SPA, onde cuidava de pequenos afazeres administrativos e tentava criar algumas estratégias de marketing para o negócio. O lugar, instalado em um dos melhores bairros da cidade, era de uma qualidade impressionante e nunca vista na região. A ideia de um espaço urbano voltado ao público masculino, com salão de beleza, saunas, massoterapia era muito para a cabeça provinciana dos campineiros que ainda não sabiam lidar com tamanha “modernidade”.

A tendência metrossexual que tomaria conta de homens (gays ou não) nos próximos anos chegou tarde para o Spazio, que resumiu seus três anos de existência em um reduto de bichas ricas que frequentavam o lugar para cortar o cabelo, ganhar punhetas durante massagens e transarem nas várias saunas do andar inferior, cuidadosamente projetadas e decoradas com obras de arte mediterrânea. Uma pena.

Não posso dizer que não gostava daquilo. Durante os seis meses que estive lá deflorei meu lado voyeur mais profundo, assistindo orgias em vestiários, duchas, saunas e até mesmo no jardim de inverno – esse adornado por orquídeas e um pergolado oriental feito sob medida para o espaço -, tudo tão opulento e afrescalhado que beirava a cafonice sem muito esforço.

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Enquanto tomava conta do SPA durante a semana e travava uma árdua peleja contra minhas fantasias, Claudio fazia as vezes de bom marido trabalhando em uma grande empresa de peças automotivas próxima de casa. Naquela época eu acreditava que a força do que sentíamos um pelo outro era maior que qualquer conluio que existisse em nossas vidas, e eram muitos. Eu adorava nossos momentos juntos e mesmo com tantos reveses acreditava que aquilo podia ser o mais próximo de ter (e ser) uma família. Há quase 5 anos tinha me desligado da minha, uma história que merece alguns capítulos mais para frente.

Sim, há algo de podre no reino de dona Dalva (além dela)

Minha sogra, uma mulher rude e autoritária, acreditava que era dona não só de sua floricultura no fundo do quintal mas da vida social, sexual e financeira (especialmente) de seus filhos. Dalva odiava eu e meu ensino superior prestes a ser completado e criticava qualquer tentativa minha de tirar seu filho da periferia. “Ele é de outro mundo, meu filho. Você está cego com esse garoto, logo ele te dá um pé na bunda… ele nasceu em berço de ouro. Não gosta de nós e dessa casa”, bradava a mãe de Claudio para todos que ali estivessem: sua avó, tios, irmã e outros vários familiares que frequentavam a casa.

Ela estava errada. Tentei fazer daquela edícula minha casa e tinha gosto em cozinhar feijão no fim da noite, lavar roupa, pintar paredes (tudo era verde e horrível) e fazer faxinas semanais. Claudio em pouco tempo se tornou um companheiro disperso e invasivo. Dentre alguns ataques de desconfiança, ele chegava “de surpresa” no SPA, questionava meus horários e companhias durante meu expediente e curso de artes. Em sua busca implacável por algum deslize, descobriu os quase 2 gigabytes de pornografia em meu computador e meu mundo caiu. Ele esperou que chegasse do trabalho e tudo estava pronto para a conversa: três ou quatro filmes rodando ao mesmo tempo (que me surpreendi como um pentium aguentara tanto), uma mistura de gemidos, gritos e uivos viris a meia luz e Claudio, com os olhos vermelhos de raiva e lágrimas:
– O que significa toda essa merda no seu computador?
– São… são filmes meus, antigos. Eu não uso mais isso, você sabe?
– Big Dotados, Pau Brasil, Sean Cody… acessados há três dias.

Minha mentira tinha sido revelada. Coincidência ou não o histórico denunciava temáticas que rondavam minha vida naquele momento: surubas, exibicionismo, homens maduros e outras dezenas de cenas que me levavam ao dia a dia no SPA.

– Você ainda precisa disso para se satisfazer? Não sou suficiente para você?
Claudio e suas palavras. Com destreza tinha conseguido atingir, fazendo me sentir sujo e culpado. Que heresia a minha! Tínhamos sexo todos os dias, e era incrível. Não fazia realmente sentido ofendê-lo com aquele arsenal de picas e bundas.
Caí no choro, cedi e cometi talvez o maior erro daquela relação: deixei de ser eu mesmo.
– Você tem razão, não preciso disso… foi um erro. Não vou mais acessar isso e quero que você apague.

Daquele dia em diante me anulei mais e mais. Tomado por um sentimento de punição deixei aos poucos meu trabalho no SPA e, prestes a me formar ator, passei a buscar por oportunidades em São Paulo. Era para lá que eu, Claudio e mais ninguém iríamos. Recomeçaria minha vida ao lado do cara que amava e deixaríamos de lado a noite, nossos amigos, aquela casa que já me sufocava há tempos e todos os problemas que nos perseguiam. Ledo engano.

Claudio se aproveitava do meu sentimento de culpa e fazia o possível para não ficar em casa. Pretextos não faltavam: o afilhado, compras para os bares que tomávamos conta, aulas para novos funcionários e até mesmo “preciso espairecer” faziam parte do repertório de desculpas que Claudio dava para não me fazer companhia. Quando tentava iniciar alguma discussão ou saber o motivo de continuar aborrecido, ele me olhava com ares de “como assim pergunta isso”, me levando novamente para meu universo pornô e minha penitência. Aquilo havia tomado proporções ridículas que hoje não fazem sentido algum para mim, mas para um relacionamento “padrão” era a causa mortis de qualquer relação.

Dessa forma Claudio conseguia tudo que queria. Voltou a fumar, chegava em casa as oito da noite (não mais seis), nomeou sua mãe a nova “rainha do lar”, com plenos poderes para entrar em casa, mexer em nossos armários, geladeira e até colocar nosso cachorro para fora. Sim, ela me fez dar nosso cãozinho e a desculpa eram os latidos e sua enxaqueca, ambos fruto de uma ficção para me atingir, custe o que custar.
Ao fim de dois meses Claudio promulgou seu reinado egoísta e desastroso. Nossa vida sexual se resumia a uma trepada ou outra sempre alterados. Não me sentia mais parte daquela casa, daquela vida.
Era quinta-feira, quase hora de ir para casa. Estava fechando o caixa do SPA e nosso celular de trabalho, que aquele dia estava comigo, tocou. Um número desconhecido e uma voz entranhada anunciava:
– Claudio?
– Quem fala?
– Quero falar com o Claudio. É o Denis…
O que Denis, o braço direito de Melinda, queria com o Claudio? Não podia ser um caso, afinal Denis não era gay, definitivamente. Achei que também estivesse se mudado ou algo assim. Haviam boatos que Denis se envolvia com as mesmas pessoas que Melinda, mas nunca se provou nada. O cara, de porte atlético e dentes dourados de cigarro, tinha uma voz rouca e um certo charme “mano”. A todo momento imaginava aquela vadia fazendo dele um garoto de recados, e precisava saber o que seria.
– Ele não está.
Quer que avise que ligou?

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Desligou na minha cara. Meu sangue subiu e precisava saber o que estava acontecendo. Sem pensar muito retornei a ligação e criei em tempo recorde a armadilha necessária para ter o que queria:
– Denis, o Claudio pediu que ligasse para ele, urgente. Ele está nesse número fixo, e pode deixar recado que é número da sala dele, e ele retorna.
Passei o telefone alternativo do SPA, que normalmente servia para a linha da máquina de cartão de crédito. Por sorte o puto não pensaria muito e cairia na emboscada. Com duas palavras se despediu e logo ouvi o telefone da recepção tocar e em seguida a secretária eletrônica me contava o que mudaria minha vida naquele momento:
– Claudio, fala brother… preciso te entregar hoje a grana dos bullets e as charadas que estão comigo. Vai passar de novo na casa do Jacques? Estou por lá até as oito. É meio urgente, não tô podendo ficar com essa grana, irmão!

Pode deixar comigo, “brother”… seu recado será dado hoje, sem falta.

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