04 – Nosso castelo com parede de reboco

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Fugi em direção ao banheiro. O garçom, que já tinha trocado olhares quando cheguei (e estava são), segurava o riso e me indicava o lado certo para o sanitário masculino. É ridícula minha facilidade em ficar bêbado.

Daquela porta saiu um garoto que me segurou pelo braço de forma funesta e sincera:
– Que loucura, cara. Que brisa é essa!?
O garçom salvou novamente a noite e deteve o rapaz, que me soltou após alguns chacoalhões. Sua mão era fria e ele se agarrava à mesa, ao quadro, ao garçom, rangendo os dentes e falando algo ininteligível. Fechei a porta e me tranquei.

Olhei para o espelho e eu continuava lá, o “eu” de seis anos atrás…

Não há nenhum lugar como nosso lar… eu acho

Do outro lado do espelho me via claramente pronto para sair para o trabalho. Bandanas apertadas valorizando o muque, brincos grandes de argola e uma camiseta preta sobre a calça jeans escura e mal lavada. Vivia mais dentro daquele conjunto de roupas do que comigo mesmo.

Havia saído de um bairro bacana em Campinas, com uma casa grande e confortável para viver o sonho de outra pessoa. Eu morava com cinco rapazes e dividia meu quarto, mas ainda assim me sentia confortável e com o sentimento de “aqui é minha casa”.

Para onde fui?

Bem… você já ouviu falar em Hortolândia?

Hortolândia fica a menos de vinte minutos de Campinas e tem aproximadamente duzentos mil habitantes, sendo 5% deles residentes de um dos maiores complexos penitenciários do interior de São Paulo. O sistema deles é tão pesado que ganhou carinhosamente o título de “Carandiru Caipira” por receber os piores detentos da capital em uma de suas sete alas.

04 - NOSSO CASTELO COM PAREDE DE REBOCO_01

Me mudei para menos de um quilômetro do presídio e no meu primeiro dia dormi ao som de sirenes em busca de vinte fugitivos. Minha nova casa havia sido construída para que Claudio e Diego pudessem viver seus sonhos. O sonho acabou junto com o dinheiro e o cômodo, levantado nos fundos da Vila Malta, se resumia em um quarto-sala-cozinha com um banheiro sem terminar.

Nossos anos juntos me renderam olheiras que até hoje tento amenizar com óleo de semente de uva e compressas. Claudio era um trabalhador incansável e eu, um trabalhador que adorava dinheiro… juntos estávamos prontos para conquistar o mundo, ou inicialmente as regiões central e sul de Campinas.
Os donos do SPA que havíamos inaugurado há alguns meses era um casal de bichas de meia idade que foram com a minha cara e acreditaram que eu podia fazer algo acontecer por ali. Aquele era meu trabalho durante o dia. A noite, de quinta-feira a domingo, eu estava lá, ao lado do Claudio, trabalhando em duas ou três casas noturnas diferentes servindo bebidas e organizando grandes equipes de bar.

Eramos o “casal modelo” para qualquer gay que perguntasse o que era um relacionamento homossexual feliz. Tive certeza desse título exagerado quando trabalhamos no casamento de dois conhecidos (que acabou dois meses depois) e durante as palmas e discursos um dos padrinhos foi interrompido ao perguntar “se existia casal mais lindo e mais intenso que os dois futuros noivos”.
– Sim, eles estão aqui! – Gritava Alan, um conhecido nosso, nos apontando completamente embriagado e sem saber que se tornara persona non grata nos demais casórios.

Depois daquele episódio, o tempo e a rijeza da rotina me fizeram questionar o que é um modelo e de quais padrões são feitos.

Em menos de um ano eu e Claudio não éramos mais funcionários, e sim chefes. Cansados de exploração, doze horas de trabalho por quarenta reais, decidimos montar nossa própria equipe e saímos em busca de outras casas. Ao contrário da maioria dos bartenders, que faz seus negócios na calada da noite (literalmente), decidimos juntos chegar até o Marlon, dono da casa em que trabalhávamos, para contar não só nossa saída mas também de toda a equipe.
Marlon, um negro de dois metros de altura e dois de largura, ficou enfurecido com a sinceridade que derrubou o pó que estava enfileirando, socou a mesinha de centro da sala com tamanha força que rachou o chão. Claudio e eu saímos de lá brancos de medo e de cocaína, que espalhou por toda a sala e escadas após o ímpeto de ódio do agenciador.

Desse dia em diante tudo melhorou em nossas vidas. Ganhávamos três ou quatro vezes mais por noite, e os quarenta reais ainda eram pagos, mas para nossos funcionários. Aos domingos chegávamos em casa, nosso castelo com parede de reboco, depois de trinta horas de trabalho, e estirávamos aquela quantidade extraordinária de notas de cinquenta e cem reais na cama, como se aquilo devesse ser visto e entendido como o esforço sobrecomum que fizemos por quase um ano.
– Parece aquelas cenas de noticiário de TV, quando a polícia estoura a boca e exibe a dinheirama toda na delegacia.
Brincou Claudio, uma vez logo após transarmos sobre aquelas notas sujas.

Não havia saúde para segurar aquele ritmo vertiginoso de trabalho, e cada vez queríamos mais. Nossa relação se resumia a trabalho, estimulantes e sexo. O “rebite”, comumente utilizado por caminhoneiros e outros trabalhadores da noite, não fazia o efeito esperado então Claudio trouxe para casa uma novidade: Ritalina.
– Consegui com a Melinda, que faz residência na UNICAMP.
– Eu topo, mas não vamos viciar nessa porra. Só sábado para domingo de manhã, quando vamos para o Tênis Clube, e nenhum outro dia. Promete?
– Eu prometo.
Ambos sabíamos que aquela promessa, e as outras que seguiriam, seriam em vão. Em um mês tomávamos aquela droga como aspirina. Se era preciso menos duas horas de sono (estava prestes a me formar), “vai na Rita”… festa de batizado do afilhado? “Vamos de Rita”. Até o dia em que não percebi que tinha tomado três e virei duas garrafas de cerveja antes de voltar para a The House. Malditas cervejas!

Apaguei.

Todos na balada conhecem eles por “Blake e Amy”

Acordei dois dias depois com berros que poderia identificar há alguns quilômetros:
– Você quer matá-lo, seu merda!?
– Calma, Alex, eu jamais faria alguma coisa a ele. Juro que achei que tinha jogado tudo fora. Eu parei com isso, parei com tudo há uns dez dias.
– Seu idiota inconsequente! Se fizer alguma coisa ao meu garoto eu volto para esse buraco e te arrebento, até matar!
Continuei de olhos fechados, e para quem quisesse saber continuava dormindo. Em menos de uma semana a vida voltou ao normal. Por saber do risco de misturar as coisas, parei com a bebida, mas continuei com o Speed. Na sexta-feira seguinte voltei para a The House, cheguei antes do Claudio, que parou para ajudar sua mãe com a kombi aos pedaços da família. Do corredor de entrada da boate conseguia ouvir algumas pessoas papeando no bar:
– Pois é, menina… vocês estão correndo risco aqui. Esses dois viciados vão acabar dando prejuízo pra casa, escuta o que estou te falando.
– Não é bem assim. Ele deixou claro hoje no telefone que foi um acidente – Argumentou Gikka, umas das bartenders, e amiga.
– Até parece! Ontem a galera estava no Sucão e já estão sabendo. Todos na balada conhecem eles por “Blake e Amy”!
Foi o que ouvi quando cheguei de sopetão no bar. A vagabunda da Melinda,
a mesma maldita traficante que entupia o Claudio de Ritalina e Pervitin, contava para dois dos nossos funcionários qual era o novo apelidinho do “casal modelo”.

04 - NOSSO CASTELO COM PAREDE DE REBOCO_02
– Deixa eu adivinhar… todos na balada conhecem você por Escobar, acertei?
A garota foi surpreendida por uma voz logo atrás dela. Eram visíveis seus espamos e o pescoço, que travou até a hora que saiu da mesa, duas horas depois.
– Acho que não. Pablo Escobar vendia da boa, que ele mesmo produzia, e você rouba a porra da universidade pra vender essas merdas desses remédios pra qualquer um que te dê vinte conto ou comam sua boceta!
– Inclusive seu maridinho, gato. E saiba que ele não me dá “vinte conto” há um bom tempo!
Ainda lento e sob efeito de calmante, quebrei uma garrafa na quina do balcão e estava pronto para enfiar no pescoço de Melinda. Meus reflexos, ainda comprometidos, foram detidos por Claudio, que gritava em nossa direção:
– Pelo amor de Deus, parem!
Melinda estava no chão, com os olhos vidrados e Claudio foi ampará-la. Os arredores do bar e balcão, que até há pouco estavam com apenas três pessoas foram tomados por dez seguranças, faxineiros, outros funcionários da casa noturna e até clientes, que conseguiram escapar da fila externa e foram para dentro participar da algazarra.
– Deixe ela em paz… está me ouvindo?

Claudio não veio por mim. Ele defendia a traficante que tinha nos jogado naquela lama.

– Eu só espero, Claudio, que eu seja a Amy da história… seu merda.

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1 comentário

  • Reply Guilherme Farah Boller 22 de março de 2016 at 23:18

    😮 <3

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