03 – O príncipe encantado, montado em uma CG

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Naquela mesma noite nos conhecemos. Não no sentido bíblico da coisa, pois nem beijo rolou, mas até as cinco horas da manhã já sabíamos de onde viemos, quantos irmãos, como começamos a trabalhar em bares e de que forma isso nos tornava seres antissociais, mas com algum trocado (e objetivos) na vida.
A inauguração do SPA foi um fiasco, e isso resultou em um evento curto e sem muito esforço… a equipe de bar foi embora em menos de três horas e Claudio permaneceu ali, recolhendo as taças e sorrindo para qualquer coisa que eu falasse.

Não tinha motivo aparente para aquela química toda, mas ela estava ali, bem presente e insistindo para que a noite não acabasse, pelo menos sem um número de telefone ou um “até logo”. Claudio teimou em me dar carona, e eu, mesmo sabendo que daríamos uma volta no quarteirão, aceitei prontamente. Esperava por aquelas cenas de cinema onde ele me jogaria porta adentro e me comeria ali mesmo, sobre o capacho da sala. Isso não aconteceu, não naquele dia.

Ao invés disso ganhei um beijo no canto do rosto e fui obrigado a ver seu celular tocando. Diego gritava de forma persistente, deixando Claudio constrangido e eu com ainda mais tesão.

Claudio, um pé de amora e algumas (poucas) saudades

Claudio tem um caralho exuberante e uma simplicidade quase imbecil… uma combinação destrutiva, que pode deixar qualquer um doido. Áries, nascido e criado na região, vivia em conflito com seus ideais religiosos, familiares e tinha como sonho se casar e ter um poodle. Eu já tinha cagado pra isso há algum tempo e acreditava que poodles, assim como pinschers, deveriam substituir araras azuis e ursos panda na lista de animais em extinção.

Tudo foi muito rápido: Diego tomou um pé na bunda na mesma semana (ou pelo menos foi o que Claudio me disse) e em vinte dias fui pedido em namoro. Foi numa quinta-feira, o sol ainda a pino as sete da noite, e ele apareceu na porta da minha república pedindo para falar com urgência. Meu telefone tocava desesperadamente e eu, comendo meu ainda namorado, não escutei.

03 - O PRINCIPE ENCANTADO MONTADO EM UMA CG_01
– Não vai atender essa porra?
Esbravejou Luciano, de quatro, sobre a cama. Olhei para meu (novíssimo) V3 e era Claudio, em sua quinta tentativa de falar comigo. Sem nenhuma piedade tirei o pau de dentro do Luciano (movimento que hoje, dando o cu com mais frequência, pensaria duas vezes em fazer) e atendi sem ao menos lembrar que ali, naquele quarto, uma história ainda existia e precisava ser resolvida.
– Claudio!? Está tudo bem?
– Oi! Está… porque não meu atendeu!?
Aquilo era o prenúncio do relacionamento que viria. Já ouviu falar em “sinais”?
– Agora te atendi. O que houve?
– Eu preciso falar com você, e é urgente. É agora.
– Me encontre em vinte minutos na minha casa.
– Já estou aqui, te espero.

Vesti a cueca e a calça quase com a camisinha. Nada mais me importava além de descobrir o que teria feito Claudio mudar quase trinta quilômetros do seu trajeto e me procurar no meio de semana. As coisas não estavam bem na minha casa, provavelmente Bruno e Gabriel, dois dos meus colegas de República (e os únicos que ainda conversava) não estavam e Claudio continuava na porta. Ansiedade e pressa, somado a um sorriso estranho no rosto, dominava aquele momento e não havia Luciano, sexo ou qualquer outra situação pendente naquele quarto.
– Acho que já entendi os seus motivos… e não vou fazer nada para impedir isso.
Falou Luciano, pelado, em direção ao chuveiro.
Tinha ido para sua casa com um único objetivo: terminar nosso namoro. Na verdade não se tratava de um namoro, afinal nunca oficializamos isso com um pedido formal, jantar romântico ou uma aliança, mas sabíamos que tinha algo legal entre nós acontecendo há quatro ou cinco meses.
– Eu nem sei o que dizer, Lu…
– Eu já vivi bastante pra saber que isso é uma despedida, gato. Vá viver esse felicidade aí… está bem escancarada, nessa cara linda, sua.
Encerrou a frase com um beijo. Um beijo de despedida. Luciano tinha orgulho e sempre acentuava seus oito anos a mais que os meus. Seus trinta e poucos refletiam em suas atitudes, seu carinho e nas aulas de sexo quase hardcore que me dava três vezes por semana. Trinta e poucos que não refletiam em sua bunda viçosa e deliciosamente descoberta, abrindo a porta para minha ida, sem volta.

O táxi nem tinha parado e já pulava em direção ao portão. Encontrei Claudio sentado na esquina, debaixo de um pé de amoras (que até hoje me enche de saudades). A noite chegava ao fundo de um rosto reluzente, de traços fortes e um sorriso incrivelmente alvo.
– Você chegou!
– Desculpa, eu vim o mais rápido que pude.
De fato. Se paguei por um táxi quatro vezes na vida, é muito.
– Eu precisava falar com você, e tinha que ser hoje.
Tentei perguntar, mas não foi preciso.
– Você quer morar comigo?
Eu falei pedido de namoro? O cara me pediu em casamento!
Me lembro de uma pausa longa e minha inexpressão. O silêncio era tamanho que ouvia os latidos do cachorro rouco da Dona Marli, meio quarteirão de distância, e o vento.
– Quero.
Aquele mesmo vento nos levou dali uma semana depois. Um vento quente de verão misturado com sopros frescos e desarrumados… assim me sentia com aquela mudança que faria todo sentido algum tempo depois.

Você deve estar curioso para saber quão longe e quão intenso foi tudo isso. Ah, basta saber como o amor transforma… e nos deixa absolutamente malucos e irresponsáveis! Depois de tantas mudanças em busca de um teto em Campinas, quando finalmente encontrei um grupo de colegas que pudesse dividir minha vida, um quarto e muitas experiências (dentre elas, sexuais) eu disse “sim” para um pedido de casamento com um quase estranho!
Em menos de três meses de conhecidos, eu e Claudio morávamos juntos no fundo da casa de seus pais. De sua mãe, na verdade. O pai, alcoólatra, havia fugido de casa há alguns anos. A falta paterna era óbvia e deixava Claudio chateado quando era essa a pauta nos raros almoços de família. Sua mãe e irmã tinham nele a figura do homem da casa, e eu achava que, pela segunda vez, havia encontrado meu príncipe encantado. Assim é a vida aos vinte e pouco, não é?

Sabe, aqueles que você planeja histórias a longo prazo e acredita nos ideais românticos aprendidos na aula de literatura do segundo colegial? Tipo isso.
Tudo começou e terminou no trabalho, e a linha entre esses dois pontos foram três longos anos de paixão intensa, promessas furadas e aquela jornada dolorosa rumo à maturidade.

03 - O PRINCIPE ENCANTADO MONTADO EM UMA CG_02

Me fala, o que essa cabeça cheia de ideias está pensando agora…

– Alô… Rafael chamando João Assali!
Por um instante voltei para aquele bar no meio da Roosevelt. Rafael me olhava, há poucos segundos, esperando uma reposta.
Dentro de mim haviam se passado quase seis anos, mas foram apenas sessenta segundos.

Só tive a certeza de que aquele pé de amora e o cheiro de graxa da CG não estavam ali após engolir seco o último trago de rum no fundo do copo… e aquela hortelã, inteira, que insistia em ficar ali.
– Eu acho que preciso de um ar…
Sai, meio que cambaleando, como se recém saído de uma máquina do tempo. Não sei exatamente qual seria a sensação ao sair de uma, na verdade… pelo que me lembro, Wells descrevia essas viagens como “uma jornada angustiante, nítida e nostálgica dentro de si”. Sim! Me sentia exatamente assim!

Ouso dizer que Herbert George Wells namorou o Claudio em alguma vida passada.

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2 comentários

  • Reply Guilherme Farah Boller 12 de março de 2016 at 22:02

    Continua! Está maravilhoso <3

    • Reply Kinho Mangerona 21 de março de 2016 at 22:34

      Já tem mais um capítulo, já viu Gui?
      😉

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