02 – Aquele mojito tradicional, cubano

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Ainda restavam inseguranças e dois bares abertos na Roosevelt naquela quarta-feira quente de janeiro. Parecia que todo tesão em propor um ménage havia desaparecido e falar do Ricardo ou de qualquer outra sandice que me passava a cabeça era kamikaze.

De repente me tomei por maluco, tive medo de seguir com a ideia inescrupulosa de abrir meu relacionamento. O mojito subiu e só estava no segundo. Tive a estranha sensação de ter vivido aquele momento ao olhar para as folhas de hortelã inteiras no fundo do copo… que sacrilégio!

Memórias boas me tiraram por alguns segundos do Lekitsch e levaram para 2006. Podia sentir o golpe daquela colher bailarina nas mãos, das vezes que não entregava o mojito perfeito no balcão e Alex me batia como se fosse uma governanta alemã da década de 50.

Um mojito de verdade você amassa a hortelã até não ver mais folhas!

Meu curso de artes tomava todo meu dia e precisava de grana imediatamente. Quando se é estudante de teatro alguns bicos são quase que inerentes à formação: animação de festas, atendimento de videolocadoras, bares e michê. Em algumas dessas opções você certamente verá um jovem aspirante dos palcos garantindo honestamente os trocos pro final de mês.

Para todas as oportunidades descritas o pré-requisito era ser gentil e comunicativo. Naquele momento, por mais que já tivesse me aventurado em (quase) todas, decidi que minha fobia social já não me permitia ser simpático o suficiente para falar de filmes, cantar High School Musical incansáveis vezes ou comer alguém sem vontade. Bartender seria o caminho.

Acidentalmente, fui chamado para participar de um teste em uma casa noturna de música eletrônica e passei. O gerente, que claramente esperava alguma recompensa, escolheu a mim e outro garoto da mesma idade para uma equipe de seis profissionais. “Falta essa carinha de leite no meu balcão… quero a inocência de vocês tirando até o último centavo de cada filho da puta que quiser pagar uma bebida”, bradava Alex, o gerente e sócio da casa, ao apresentar os dois moleques assustados para aqueles brutamontes enfeitados com bandanas e barbas por fazer rodando garrafas e falando sobre raves e bocetas.

Enquanto Gui, o outro garoto contratado, abusava de seus olhos azuis e sua bunda empinada de encher os olhos, eu via Alex quase como o pai que não tive. Ele me deu a primeira surra pela única vez que cheirei pó na vida, apresentou Nina Simone, David Bowie e Amy Winehouse e ensinou a apreciar uma cannabis, sem a afobação de outrora. Fazíamos banquetes experimentais, gourmets (antes mesmo do termo se popularizar) e inestimáveis para os amigos no momento da larica. Bons tempos!

Fui seu ombro amigo quando o namorado fugiu para o Recife com a foda fixa deles e nesse momento, pela primeira vez, conversava como adulto. Ouvia histórias sobre ménage a trois, viagens para África, o desafio de ser órfão aos seis anos e de que forma morar em um internato religioso pode tornar pessoas, gays ou não, ainda mais revoltadas com a religião e os dogmas.

02 - AQUELE MOJITO TRADICIONAL CUBANO_01

Meu gosto por trabalhar na noite trouxe muitos benefícios. De anfetamina grátis a convites para conhecer outros bares (e beber de graça), quase todo fim de festa tinha carona garantida para casa e uma gozada antes de dormir. Aprendi a explorar de uma boa dose de álcool para conquistar caixinhas gordas, e transas, além de adquirir um vício besta em cigarros que só larguei há pouco.

Atrás de um balcão de bar, no auge das raves e festas intermináveis, descobri que não há profissão mais unida que as da noite. Tive na exaustão das baladas a breve sensação de ter uma família, ou apenas pessoas que se importavam comigo, o que comia ou revezavam no balcão para que tirasse um cochilo de duas ou três horas para ir à aula. Não falava com a minha mãe há três anos e encontrava nesses seres noturnos um pouco de sentimento materno. Fui feliz assim.

A Casa abria de quinta a sábado, precisava garantir um extra. Passei a procurar em comunidades na internet por trabalhos nos demais dias. Fui chamado para a inauguração de um SPA urbano na rua de trás de casa, e claro, me contrataram imediatamente. Pela primeira vez cheguei no horário e comecei a cortar limões, abacaxis e outras frutas para os drinks elaborados e afrescalhados que seriam servidos ao longo do evento.

É assim que você corta limões, bonitão?

Foi com esse ar galante a la Mastroianni que Claudio falou comigo pela primeira vez. “Você deve trabalhar em balada, que servem até água de torneira por dez contos, acertei?”, falou sorrindo e segurando minha mão com firmeza, me ensinando a cortar fruta. “Faço um talho de cada lado para tirar o miolo branco. Depois transformo tudo isso em rodelas fininhas”, falava bem perto de mim, com um hálito de menta que seguiria com ele até nosso último dia juntos.

Logo aproveitei de mostrar ao meu professor se tinha aprendido a lição. Me encaixei ainda mais em seus braços e rocei o que pude em sua mala destacada na calça jeans escura de trabalho. Ficamos assim por um tempo, e queria que assim ficasse… até que o restante da equipe chegou.
Claudio disfarçou o pau duro e virou de costas pegando os pequenos sacos de gelo da pia.

O time era composto por oito integrantes, todos já se conheciam e trabalhavam juntos há um tempo. Meninas excessivamente maquiadas e outros caras que organizavam o espaço de forma sincronizada e eficiente me deixaram animado com a ideia de fazer parte daquilo até que um deles, com olhar desconfiado e o cabelo embatumado de gel, vai até “meu professor de limões” e rouba um beijo. Era o fim da minha animação, de todas elas.

02 - AQUELE MOJITO TRADICIONAL CUBANO_02
– Está tudo bem Claudio? – Perguntou Diego para o namorado.
– Tudo… tudo bem, e você, amor?
– Também. Olha pra mim… está de costas. Cumprimenta o pessoal.
Nessa hora não consegui segurar e soltei uma risada baixa e pretensiosa. Claudio estava roxo e arqueado para que não trouxesse a tona o pau duro sob o avental e Diego me olhava desconfiado e irritado. A cena foi desfeita com um telefonema inesperado e que indicaria minha “noite de sorte”.
– Claudio, o chefe está pedindo reforço na The House… é pra você decidir quem vai pra lá.
– O menino novo, né Claudio?
Argumentou Diego, suando e deixando transparecer seu gel excessivo e a raiva que estava, sem saber o motivo.
– Quero que você vá, Diego… ele vai ficar aqui hoje e aprender.
Puto da vida e sem olhar para os lados, Diego pegou um molho de chaves sobre a mesa e foi para fora do SPA. Todos olharam para mim, e eu, sem saber o que fazer naquele momento fiz o que qualquer pessoa naquela situação faria.
– Você quer me ensinar a cortar o abacaxi ou o kiwi agora?

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1 comentário

  • Reply Orlando Netto 16 de abril de 2016 at 12:09

    As histórias estão a cada dia melhores!

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